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“Quando a Distopia se Assemelha a ‘3%’ em vez de ‘1984’: Uma Nova Perspectiva” – Jornal da USP

“Quando a Distopia se Assemelha a ‘3%’ em vez de ‘1984’: Uma Nova Perspectiva” – Jornal da USP

17 de abril de 2025

Autores:

Redação


Análise Crítica: O Impacto da Transparência e da Vigilância em Nossas Vidas

Recentemente, tive a oportunidade de mergulhar nas páginas de O Vazamento, de Natalia Viana, uma leitura que considero imprescindível para todos os estudantes de jornalismo. Publicado pela primeira vez em 2010, o livro relata a colaboração de Viana com o Wikileaks e Julian Assange na divulgação da parcela brasileira de mais de 200 mil telegramas confidenciais do governo dos Estados Unidos. Dentre esses documentos, aproximadamente 100 mil continham informações sigilosas, revelando segredos e indiscrições que abalaram a diplomacia mundial.

O impacto dessa revelação foi profundo, desencadeando crises políticas ao redor do mundo e contribuindo para a eclosão de movimentos sociais no contexto da Primavera Árabe, que se intensificaram em 2010 e chegaram ao Brasil em 2013. Naquele tempo, a expectativa em relação ao futuro era marcada por um otimismo em torno das novas tecnologias e das redes sociais, vistas como ferramentas capazes de aprofundar a transparência e a democracia. Acreditava-se que a ascensão da internet permitiria que verdades emergissem sem os filtros tradicionais dos meios de comunicação, ampliando a fiscalização das ações dos poderosos.

No entanto, quinze anos se passaram e os cenários mudaram dramaticamente. O Estado, antes percebido como um agente dos interesses de um capitalismo excludente, agora se apresenta fragilizado, incapaz de enfrentar desigualdades crescentes e de regular a concentração de renda e poder. Em contraposição, as grandes empresas de tecnologia e as redes sociais assumiram um novo papel, se tornando responsáveis pela vigilância e pela manipulação das vontades individuais, muitas vezes visando apenas o aumento de seus lucros.

Nesse contexto complicado, as promessas de liberdade e de voz para os marginalizados se dissiparam em meio a um mercado que explora as vulnerabilidades humanas. O reconhecimento e a valorização social foram redefinidos, agora atrelados à capacidade de lucro em um sistema abertamente concentrador de riqueza. A desregulamentação do mercado, por sua vez, fomentou a ascensão de diversas máfias que operam em ambientes virtuais, utilizando criptomoedas para realizar transações sem rastreamento.

Natalia Viana, em seu capítulo final, expressa a transformação do espaço público em um "shopping center regido por um algoritmo dinheirista". Seus dados são alarmantes: o valor de mercado do Google subiu de 28 bilhões de dólares em 2010 para impressionantes 237 bilhões em 2023. Nessa época, conglomerados como Google e Facebook dominavam quase 60% do mercado de anúncios digitais globais. O controle da internet por um pequeno número de empresas expõe a impotência dos Estados em regulamentar esta nova realidade.

Diante desse panorama, podemos observar ecos de 1984, de George Orwell, em nossa sociedade atual, cada vez mais aprisionada pelo consumismo e pela competição. A ideia de uma elite isolada e protegida dos 97% que permanecem à margem da prosperidade se torna mais real a cada dia, em um cenário que prevê Estados erigindo barreiras e fortificando fronteiras para proteger os muito ricos de uma massa empobrecida.

A reflexão proposta por Viana e a ressonância com experiências literárias clássicas nos instigam a repensar nosso papel como cidadãos e como profissionais envolvidos na comunicação. A luta por um futuro mais justo e igualitário depende da nossa capacidade de questionar e desafiar as estruturas que, sob a fachada da transparência, muitas vezes perpetuam novas formas de controle e exclusão.



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