Reflexão sobre o cenário atual do jornalismo: um chamado à ação
Neste domingo, 3 de maio, quando celebramos o Dia Mundial da Liberdade de Expressão, fiquei imerso em um misto de espanto e pessimismo. Meu planejamento incluía um voo para Lusaka, na Zâmbia, onde participaria de uma conferência em homenagem a essa importante data. Contudo, a situação complicou-se quando o governo chinês tentou censurar o evento Rights Con, pressionando as autoridades locais. Assim, minha viagem para Addis Abeba, onde eu pegaria um segundo voo, foi cancelada. O que restou foi uma conferência realizada online, longe do ideal.
As notícias não são animadoras para aqueles que acreditam que o jornalismo desempenha um papel crucial na defesa da liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, a gestão Trump recorre a práticas vistas em regimes autocráticos, como os de Putin e Chávez, pressionando jornalistas críticos e colocando aliados em posições estratégicas para adquirir conglomerados de mídia. A FCC, que regula a distribuição de licenças de TV, está considerando rever a licença do canal ABC após uma piada de Jimmy Kimmel sobre a segurança do presidente.
Que isso ocorra na “maior democracia do mundo” sem grandes repercussões – onde estão os protestos? Onde as declarações da OEA? Essa apatia evidencia que silenciar jornalistas se tornou uma tática cada vez mais normalizada por regimes autoritários globalmente.
O cenário não melhora. Os magnatas de Silicon Valley continuam a se apropriar do conteúdo jornalístico para alimentar suas inteligências artificiais, recusando-se a pagar por isso, como o Google tem feito há anos, alegando que o jornalismo não possui valor. Recentemente, Peter Thiel investiu na criação do "Objection", uma plataforma que pretende atuar como um "tribunal de IA" para julgar reportagens. A ideia é empregar ex-agentes da CIA, FBI e NSA para avaliar as informações, arbitrando verdades baseadas em análises de IA. Essa abordagem coloca em risco a essência do jornalismo, que foi, e deve ser, humano.
Para aqueles de nós que acreditam que o avanço da sociedade depende do acesso à informação de qualidade, que reconhecem a importância de seres humanos na verificação e na denúncia das manipulações dos poderosos, é imperativo reinvenção o papel do jornalismo neste novo cenário informacional.
Na Pública, estamos comprometidos em criar um veículo resistente aos desafios contemporâneos, mantendo a independência e a integridade. Ao longo de 15 anos, construímos uma reputação forte e aprendemos a adaptar nosso modelo para enfrentar os obstáculos atuais.
Com isso em mente, unimos forças com a ESPM para lançar o curso “Liderança e Empreendedorismo no Jornalismo: Da Ideia à Realidade”. Este programa visa capacitar jornalistas e empreendedores a transformar ideias em produtos jornalísticos impactantes. Durante o mês de junho, estarei ao lado de Veronica Goyzueta, cofundadora da Sumaúma, compartilhando conhecimentos sobre como criar e gerir iniciativas jornalísticas que realmente façam a diferença na sociedade.
Nosso objetivo é formar uma nova geração de líderes que possa combinar rigor jornalístico com pensamento estratégico, garantindo assim a resistência necessária contra ataques e assédios, enquanto busca novas maneiras de ampliar o consumo de jornalismo de interesse público.
A importância do jornalismo é inegável—ele desafia os poderosos. Se figuras como Peter Thiel investem grandes somas para desacreditar jornalistas, isso é um sinal claro de que estamos fazendo algo certo. A missão à nossa frente é significativa: defender o futuro da profissão, estudar, aprender e, principalmente, agir.
Convido todos a se unirem a nós nesta jornada. Se você conhece alguém que possa se interessar, não hesite em compartilhar esta mensagem. Juntos, precisaremos formar um verdadeiro exército de novos líderes da imprensa do futuro.
