Por Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista e professor titular da USP
A icônica imagem do Relógio do Juízo Final, que se aproxima perigosamente da meia-noite, é um símbolo que nos coloca diante de uma realidade alarmante. Se em 1947, a artista Martyl Langsdorf, esposa do físico do projeto Manhattan, Alexander Goldsmith Jr., criou essa representação para o Bulletin of the Atomic Scientists, jamais poderíamos imaginar que, quase 80 anos depois, a analogia com a condição da humanidade se tornaria ainda mais pertinente.
Historicamente, o relógio serve para alertar sobre o risco de uma catástrofe nuclear – um cenário que hoje parece mais próximo do que nunca. No início de 2025, de acordo com os cientistas atômicos, estamos a apenas 90 segundos da meia-noite, simbolizando o apocalipse. Essa tensão não é meramente um exercício de imaginação, mas um reflexo das declarações de líderes globais, que não hesitam em mencionar o uso de armas de destruição em massa em nome da soberania de seus países.
A atual guerra entre Rússia e Ucrânia é um exemplo contundente dessa fastidiosa escalada de hostilidades. Apesar das conversas sobre cessar-fogo, a violência persiste, e o poder destrutivo de ambos os lados, longe de arrefecer, apenas cresce. A Rússia acusa a União Europeia de militarização, enquanto convites à paz parecem ser ignorados. Ao mesmo tempo, no Oriente Médio, o conflito entre Israel e os palestinos continua a deflagrar um ciclo de violência sem fim.
Conflitos armados proliferam em diversas partes do mundo, incluindo Síria, Iémen, Sudão, República Democrática do Congo, Etiópia, Afeganistão, Líbia e Mianmar. Um estudo do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) revelou que, no ano passado, o número de mortes atingiu a marca de 200 mil em 134 guerras e conflitos armados, representando um aumento alarmante de 37% em relação ao ano anterior. Estes números são um triste testemunho de que a humanidade atravessa um de seus períodos mais sombrios.
Neste cenário, o Papa Francisco descreveu o momento atual como uma fase de “autodestruição”. Em sua encíclica Laudate Deum, o líder religioso pede um desarmamento não apenas físico, mas também retórico, alertando que o mundo se aproxima de um colapso. O secretário-geral da ONU, António Guterres, ecoa essa preocupação, declarando que a “Guerra Fria voltou”.
Recentemente, tensões econômicas também foram exacerbadas por guerras comerciais que afetam as economias globais, dando um fôlego temporário à economia mundial, mas que não alteram a paisagem de incerteza e desconfiança que prevalece. Samuel Huntington, em seu clássico Choque de Civilizações, ofereceu uma descrição assustadoramente atual da situação global, caracterizada por um aumento da anarquia, a proliferação de estados fracassados e uma crescente onda de violência.
Essa violência não se limita a campos de batalha; ela se infiltra nas estruturas sociais, de maneira que o Irã reprime as vozes femininas e o trabalho escravo se expande em várias regiões. A realidade brasileira não é uma exceção: aqui, o trabalho infantil e a exploração ambiental permanecem como desafios persistentes.
Vivemos, portanto, em uma sociedade que frequentemente parece navegar na impunidade, onde a desobediência se torna norma. Uma piada que circula aponta para o nosso peculiar posicionamento: existem quatro tipos de sociedades no mundo, e a brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que é proibido, parece, de fato, uma caricatura de nosso estado atual.
Enquanto o crime organizado, como o PCC, recolhe lucros astronômicos, a violência continua a impregnar nosso cotidiano. Em suma, a realidade global é marcada por guerras, desigualdades, destruição ambiental e violações de direitos humanos. O Relógio do Juízo Final, agora a 90 segundos da meia-noite, nos convoca a refletir sobre como podemos reverter esse caminho catastrófico que nos leva em direção a um futuro obscuro.
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