Ir para o conteúdo

Comissão Propõe Fim da Interferência Política na “Lista Suja” do Trabalho Escravo

Comissão Propõe Fim da Interferência Política na “Lista Suja” do Trabalho Escravo

14 de maio de 2026

Autores:

Redação


Comissão de Direitos Humanos da Câmara busca garantir integridade na lista de empresas envolvidas com trabalho escravo

14 de maio de 2026 – 15:52

O dia 13 de maio, que rememora a Abolição da Escravatura no Brasil, foi marcado por um importante debate na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados. A comissão decidiu enviar recomendações à Casa Civil e aos Ministérios do Trabalho e dos Direitos Humanos para que a "lista suja" — o cadastro de empresas que utilizam trabalho escravo — não sofra interferências políticas.

Nesta semana, foram realizadas duas audiências públicas que discutiram o aumento dos registros de trabalho escravo no país. No primeiro encontro, especialistas alertaram sobre pressões políticas que afetam a transparência da lista de empresas condenadas por exploração laboral.

Durante o debate, o deputado Padre João (PT-MG), autor do requerimento, afirmou que a manutenção dessa prática é uma "vergonha nacional" e pediu ações eficazes para combatê-la. Ele defendeu que o 13 de maio deve ser um dia de denúncia, não de celebração. "Precisamos afiar as ferramentas para erradicar isso de vez", enfatizou o parlamentar, pedindo que ofícios sejam encaminhados aos órgãos competentes para proteger a integridade das políticas de enfrentamento ao trabalho escravo.

Políticas públicas e desafios de fiscalização

Autoridades do governo federal participaram do debate, enfatizando a necessidade de fortalecer os mecanismos de controle, embora tenham reconhecido a existência de desafios orçamentários e de recursos humanos. Day Carvalho Coelho, coordenador-geral de Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério dos Direitos Humanos, ressaltou que o modelo atual é baseado em cooperação entre diversos órgãos e na transparência. Ele defendeu a manutenção dos mecanismos existentes para garantir a autonomia das decisões brasileiras frente a investigações internacionais.

"Não podemos retroceder nas conquistas que já alcançamos no combate ao trabalho escravo", afirmou Coelho, mencionando o Terceiro Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, lançado em janeiro de 2026, que organiza as ações do Estado em eixos de prevenção, repressão e assistência às vítimas.

Shakti Prates, coordenadora-geral de Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, abordou preocupações sobre a capacidade de atuação do órgão e sobre a proteção dos procedimentos técnicos. Ela anunciou a entrada de 900 novos auditores-fiscais do Trabalho em 2026, o que trará um novo "fôlego" às iniciativas de combate ao trabalho escravo, permitindo um atendimento mais eficiente às denúncias.

Propostas legislativas em pauta

Durante o debate, foram apresentadas diversas sugestões para intensificar o combate ao trabalho escravo, incluindo:

  • A aprovação do Projeto de Lei 572/22, que propõe um marco nacional sobre direitos humanos e empresas.
  • A regulamentação da Emenda Constitucional 81, que prevê o confisco de terras onde ocorrer trabalho escravo para fins de reforma agrária.
  • A criação de uma Lei Brasileira de Devida Diligência, que obrigaria empresas a monitorar suas cadeias produtivas.

Perfil das vítimas e racismo estrutural

Representantes da sociedade civil apontaram que a escravidão contemporânea no Brasil possui um perfil racista e classista bem definido. Jorge Ferreira dos Santos, coordenador da Articulação dos Empregados Rurais de Minas Gerais e ex-vítima de trabalho escravo, destacou que 80% dos resgatados são homens negros e jovens. Ele criticou a impunidade que cerca os empregadores, questionando a disparidade nas condições de punição.

Luiza Buchaul, da Conectas Direitos Humanos, também enfatizou que o Estado falha em enfrentar a discriminação estrutural que perpetua essa exploração.

O setor cafeeiro e a responsabilidade corporativa

O setor cafeeiro foi identificado como o que mais resgates registra, especialmente em Minas Gerais. Segundo Natália Suzuki, da Repórter Brasil, 212 vítimas foram resgatadas nesse setor no último ano. Ela criticou a postura de grandes cooperativas que apenas suspendem o fornecimento após a identificação do problema, ressaltando a necessidade de uma correção estrutural da cadeia produtiva.

Em resposta, o Ministério Público do Trabalho intensificou o projeto "Reação em Cadeia" para responsabilizar grandes empresas e cooperativas pela situação em suas cadeias fornecedoras. O deputado Padre João planeja levar essa discussão para as comissões de Agricultura e de Minas e Energia, com o objetivo de cobrar responsabilidade dos setores produtivos.

Da Redação – GM



Link da Fonte

Compartilhe:

Compartilhe emfacebook
Compartilhe emtwitter
Compartilhe emlinkedin

Mais lidas