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Blitze da PRF em estradas beneficiadas pelo transporte gratuito de eleitores pode ter impacto na votação de Lula.

Bolsonaro sofreu rejeição nos locais mais afetados pela covid-19

As blitze protagonizadas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) em estradas federais em regiões mais beneficiadas pelo transporte gratuito de eleitores no dia do segundo turno, poderiam ter atrapalhado a votação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mais popular entre os mais pobres e que dependiam desse serviço. “Transporte público é uma demanda popular. O acesso diminuiu a abstenção em locais em que Bolsonaro teve melhor desempenho, especialmente no segundo turno. Foi um incentivo ao voto turbinado por uma eleição polarizada, contexto que mobiliza o eleitorado a comparecer às urnas”, diz Trevisan.

Os dados do TSE analisados pelo Ideia mostram que ocorreu o contrário: a abstenção foi menor mesmo com as intervenções da PRF, e Bolsonaro venceu nas regiões atendidas pelo passe livre com uma diferença de pouco mais de um milhão de votos para Lula – como comparação, a vantagem do petista no país foi de cerca de dois milhões de eleitores. A gratuidade do transporte foi determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes.

Não foi apenas a decisão de Moraes que ajudou indiretamente a votação bolsonarista em 2022. O STF deu a estados e municípios autonomia para adotar diretrizes de isolamento e de vacinação durante a pandemia de covid-19. Bolsonaro foi o principal crítico do “fique em casa” e, embora a União tenha comprado imunizantes, desacreditou a eficácia das vacinas. Se essas medidas não fossem adotadas por adversários criados pelo bolsonarismo, como o ex-governador paulista João Doria, o passivo de mortes pela covid-19 seria ainda maior.

Para sobreviver politicamente, Bolsonaro apostou na engorda dos programas de distribuição de renda para crescer nos locais nos quais obteve o pior desempenho em 2018, em ações classificadas pelos autores como “tentativas de melhorar artificialmente a economia”. Foram concessões que aconteceram mesmo não dialogando com o bolsonarismo original, que atacava o Bolsa Família e o auxílio emergencial (criticado por Bolsonaro, foi aprovado pelo Congresso à revelia do então presidente).

Mesmo protegido por decisões tomadas por outros entes, Bolsonaro sofreu a rejeição dos locais mais afetados pela covid-19. O candidato do PL perdeu 1,3 milhão de votos no Sudeste (região que concentrou mais mortes pela doença) em relação a 2018. Nessa mesma região, o PT obteve com seu candidato 7,7 milhões de votos a mais se comparada a eleição anterior.

A história dos pares de Jair Bolsonaro que foram reeleitos –FHC, Lula e Dilma– mostra que os índices de popularidade de quem está no poder aumentam no ano eleitoral, com o uso da máquina, especialmente nos meses de propaganda eleitoral oficial. Mas, no caso de Jair, não foi suficiente para alguém que atingiu um nível de desaprovação maior que 40%, chegando a 45% quando terminou o Auxílio Emergencial e ocorreu a crise de falta de oxigênio em Manaus
Maria Carolina Trevisan, coautora

A perda da popularidade durante o período mais intenso da pandemia jamais foi recuperada, de acordo com um compilado de 57 pesquisas públicas de avaliação adotada pelo livro. Uma sangria que deu a Bolsonaro o posto de primeiro presidente a concorrer e não permanecer no cargo desde a adoção da reeleição —ainda que por muito pouco.

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