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Utilização de Impressão 3D e Óleos Essenciais Surge como Solução Inovadora no Combate a Pragas na Agricultura

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Utilização de Impressão 3D e Óleos Essenciais Surge como Solução Inovadora no Combate a Pragas na Agricultura

4 de maio de 2026

Autores:

Leonardo Fernandes Fraceto, Professor Associado e Coordenador do INCTNanoAgro, Universidade Estadual Paulista (Unesp)


Ao longo dos anos, a agricultura moderna tem se fundamentado no uso indiscriminado de pesticidas sintéticos, visando assegurar altos índices de produtividade. Contudo, essa prática desencadeou sérias consequências, como a contaminação de solos e recursos hídricos, danos à biodiversidade, riscos à saúde humana e o surgimento de pragas mais resistentes.

Essas preocupações levam a comunidade científica a buscar alternativas mais seguras e sustentáveis. Dentre essas inovações, os biopesticidas despontam como uma solução promissora, oferecendo impactos ambientais reduzidos e menor risco à saúde quando comparados aos pesticidas convencionais.

Uso de óleos essenciais no controle de pragas

Baseados em compostos naturais, muitos biopesticidas são derivados de óleos essenciais extraídos de plantas. Entre os compostos mais estudados estão o geraniol, encontrado em óleos de gerânios, rosas e citronela, e o eugenol, oriundo do cravo. Ambos são reconhecidos por suas propriedades antifúngicas, bactericidas e inseticidas.

Dependendo da concentração e da praga, esses compostos podem apresentar tanto efeito repelente quanto atrativo para os insetos. Essa característica é particularmente valiosa para estratégias mais inteligentes de manejo. Além disso, compostos botânicos tendem a se degradar mais rapidamente no ambiente e a serem mais seletivos, reduzindo o impacto sobre organismos não-alvo e retardando o desenvolvimento de resistência nas pragas.

No entanto, sua natureza natural também traz desafios, pois esses compostos são mais suscetíveis à degradação por fatores como luz, umidade, variações de temperatura e presença de microrganismos. Isso implica em uma menor eficiência em campo e na necessidade de reaplicações frequentes, o que pode elevar custos e restringir sua adoção.

Com isso em mente, nossa equipe da Universidade Estadual Paulista (UNESP – Sorocaba) tem se dedicado a desenvolver soluções para mitigar esse problema. Somos parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), uma rede focada no desenvolvimento de tecnologias inovadoras para uma agricultura mais equilibrada.

Uma abordagem inovadora com hidrogel

Em nosso estudo mais recente, publicado na revista científica ACS Omega, buscamos uma solução que combina a sustentabilidade dos compostos naturais com nanotecnologia e impressão 3D. Em vez de aplicar os óleos naturais diretamente, optamos por encapsulá-los em nanopartículas, que atuam como cápsulas, preservando assim os compostos e permitindo uma liberação gradual.

Para isso, utilizamos a zeína, uma proteína extraída do milho, considerada altamente eficiente para a encapsulação de compostos bioativos. Nossas nanopartículas alcançaram uma taxa de encapsulamento superior a 99% e mantiveram estabilidade por mais de 60 dias, representando um avanço significativo em relação à aplicação direta de óleos essenciais.

As nanopartículas foram integradas a hidrogéis, materiais poliméricos capazes de reter grandes volumes de água. Utilizamos espessantes como alginato de sódio, pectina e Poloxâmero 407, todos reconhecidos por sua biocompatibilidade e biodegradabilidade. A impressão 3D dos hidrogéis possibilita a criação de estruturas sob medida, com controle preciso sobre forma, porosidade e distribuição dos compostos ativos, dando-nos confiança na sua estabilidade mecânica e funcionalidade em ambientes agrícolas.




Leia mais:
Água sólida: hidrogéis biodegradáveis podem ajudar a agricultura e o reflorestamento a resistirem à seca


Desenvolvendo armadilhas biotecnológicas

Um dos resultados mais intrigantes do nosso estudo ocorreu durante os testes com a mosca-branca (Bemisia tabaci), uma das principais pragas agrícolas globalmente. Esse inseto, além de se alimentar das plantas, provoca sérios danos ao seu desenvolvimento e pode transmitir vírus devastadores. A abordagem tradicional para seu controle gira em torno do uso intensivo de inseticidas químicos.


Planta afetada pela mosca-branca (Bemisia tabaci)
Fonte: Wikimedia., CC BY

Nos testes biológicos, observamos como os insetos reagiam aos dispositivos desenvolvidos. Os protótipos, especialmente os formulados com pectina, apresentaram taxas de atração superiores a 50%, permitindo não apenas o controle, mas também a atração das pragas.

Essa descoberta abre a possibilidade de utilização desses dispositivos como iscas em sistemas de armadilhas. Em vez de pulverizar extensas áreas com pesticidas, podemos redirecionar as pragas para pontos específicos, promovendo um controle localizado. Essa abordagem está alinhada aos princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que busca minimizar o uso de químicos e otimizar as intervenções, reduzindo assim o impacto ambiental e as chances de resistência.

Desafios e perspectivas futuras

Embora os resultados sejam promissores, é fundamental ressaltar que os experimentos foram conduzidos sob condições controladas de laboratório. O próximo passo envolve testes em ambientes reais, como estufas e campos abertos, onde fatores climáticos, radiação solar e interação com outros organismos podem influenciar o desempenho dos dispositivos.

Adicionalmente, nossa equipe planeja explorar novos compostos bioativos, diferentes formulações e formatos de dispositivos, ampliando as possibilidades de aplicação da tecnologia para diversas culturas e tipos de pragas.

No entanto, estamos confiantes de que nossos avanços são significativos. A combinação de óleos essenciais nanoencapsulados com estruturas impressas em 3D não apenas aumenta a eficácia dos compostos naturais, mas também reduz a dependência de pesticidas sintéticos. Assim, promovemos uma abordagem mais saudável e sustentável no manejo de pragas, que prioriza a precisão e o respeito aos limites ecológicos.

Cremos que iniciativas como esta podem traçar um futuro mais equilibrado entre produtividade, conservação e bem-estar humano, pilares fundamentais para uma agricultura sustentável no século XXI.



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