A cada quatro anos, os apaixonados pelo futebol se preparam para um evento que vai além dos limites do campo: a Copa do Mundo. Embora as regras e as dimensões do jogo permaneçam fixas, um elemento crucial do torneio está sempre em transformação: a bola. Desde 1970, a Adidas é responsável por fornecer as esferas que fazem história, trazendo inovações que influenciam a performance dos jogadores a cada edição.
Com a aproximação da Copa do Mundo de 2026, nossos engenheiros, tanto no Japão quanto na Inglaterra, se dedicam a exaustivas análises da nova bola, a Trionda. Em nossos laboratórios, as bolas passam por testes rigorosos em túneis de vento, onde medimos diversos fatores como arrasto e forças de sustentação. Essas medições são vitais para simular a trajetória da bola e prever como ela poderá se comportar durante os jogos.
Embora esses procedimentos possam parecer técnicos, a realidade é que as descobertas têm implicações significativas para jogadas decisivas: a diferença entre um gol ou um chute perdido, uma defesa segura ou um erro do goleiro. Neste maior torneio do mundo, a bola é indiscutivelmente o equipamento mais importante.
Revelada no final de 2025, a Trionda não apenas atraiu a atenção dos fãs por sua estética, mas também por suas características inovadoras. Ela apresenta um design colorido que representa os três países anfitriões: Canadá, Estados Unidos e México, e pela primeira vez na história do torneio, as partidas serão disputadas com uma bola de apenas quatro gomos.
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O desenho inédito e a redução no número de gomos chegam com um alerta: será que a Adidas não se arriscou ao deixar a bola excessivamente lisa? Esse foi um erro cometido com a Jabulani, bola utilizada na Copa de 2010, que se destacou por seus efeitos imprevisíveis e que complicaram muito a vida dos goleiros.
A evolução das bolas de futebol
As bolas da Copa do Mundo mudaram drasticamente ao longo dos anos. Na primeira edição, em 1930, as bolas eram costuradas à mão, pesadas quando molhadas e difíceis de controlar. No entanto, em 1994, com o torneio realizado nos Estados Unidos, a Adidas apresentou a Questra, uma bola feita de espuma que marcou a transição para designs mais modernos e aerodinâmicos.
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A Trionda representa o ápice dessa evolução, com suas quatro seções termoligadas, minimizando costuras. Menos gomos também implicam em uma superfície mais lisa, o que pode parecer vantajoso, uma vez que a camada de ar que envolve a bola influencia diretamente seu comportamento no ar.
No entanto, essa mudança traz à tona questões sobre como esse formato influenciará o voo da bola. Nossas análises mostram que a Trionda, em comparação com suas antecessoras, é mais rugosa e, portanto, tende a atingir seu ponto crítico de arrasto a uma velocidade menor — apenas 43 km/h —, o que pode afetar a trajetória e o alcance em chutes longos.
Goff/Hong/Liu/Asai
Por outro lado, o feito de gerar efeitos e passagens precisas pode ser aprimorado pelas texturas na superfície, o que nos faz questionar como a nova bola se comportará em um cenário real de jogo.
Teste de fogo à vista
A Trionda traz mais do que apenas mudanças em seu voar — ela também está equipada com tecnologia que promete impactar a arbitragem. A nova “tecnologia de bola conectada” permitirá que os árbitros tenham uma precisão ainda maior em suas decisões durante o jogo.
Essas ativações tecnológicas apresentam um desafio interessante: até que ponto as mudanças na bola ajudarão ou prejudicarão os jogadores? As evidências sugerem que o novo design não apresentará comportamentos inesperados, mas a verdadeira prova ocorrerá em campo.
Assim, a cada nova edição do torneio, a ciência e o esporte se entrelaçam, evidenciando como a física impacta a dinâmica do jogo, indo muito além da teoria, tornando-se quase uma demonstração viva da habilidade e confiança depositada em um único objeto: a bola.
