Conflito Econômico EUA-China: um Aviso de Recessão Global
No contexto atual das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, o professor Celso Grisi, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, conclui que não haverá triunfos nesta disputa acirrada. “Todos nós seremos afetados”, alerta, apontando que a recessão poderá se estabelecer em nível global.
Em um movimento provocador, o governo chinês anunciou o aumento das tarifas sobre produtos norte-americanos em até 125%, respondendo às tarifas que os EUA impuseram, cuja soma já chega a 145%. Esse clima de hostilidade preocupa especialistas, que anteveem um cenário de desaceleração econômica.
Grisi destaca que a China possui um mercado interno robusto o suficiente para absorver a produção que, de outra forma, seria destinada aos Estados Unidos. “Considerando a vasta população chinesa, o investimento na demanda interna permitirá que o excedente produzido seja consumido localmente”, afirma. Essa condição coloca a China em uma posição mais favorável do que os EUA, que enfrentam um mercado mais maduro e saturado.
O especialista não hesita em classificar essa batalha como “inconsequente”, ressaltando que um empate não traria benefícios a ninguém e que a recessão seria um destino comum. Essa visão pessimista leva Grisi a criticar a proposta de reindustrialização de Trump, afirmando que não há vantagens competitivas em trazer indústrias de volta aos EUA, especialmente frente a países com mão de obra mais barata e insumos mais acessíveis. Ele aponta que, embora o déficit comercial americano seja significativo, o país mantém um superávit na balança de serviços.
Além disso, Grisi critica as medidas adotadas por Trump para reduzir o déficit em conta-corrente, que em 2023 alcançou US$ 983 bilhões. Ao buscar cortes orçamentários e reverter investimentos em pesquisa e assistência, o presidente pode acabar exacerbando o problema, resultando em uma recessão que só aumentará o déficit externo.
Voltando o olhar para o Brasil, Grisi sugere que, embora existam ameaças setoriais resultantes das tensões comerciais, também há oportunidades. O país pode se beneficiar da queda nos preços de combustíveis e insumos agrícolas, além de capturar parte do mercado que os EUA perderão devido às tarifas. “Estamos em uma posição relativamente confortável, considerando nossa produção agropecuária competitiva e estabelecida no mercado global”, conclui.
Em meio a esse panorama complexo, uma coisa é certa: os desdobramentos da guerra comercial entre EUA e China têm o potencial de impactar não apenas as nações diretamente envolvidas, mas toda a economia global.
