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Ataque israelense em Gaza leva ao apelo por cessar-fogo global e veto dos EUA em resolução da ONU.




Um voto pela aniquilação

Um voto pela aniquilação

O terrível ataque israelense aos palestinos de Gaza provocou um apelo a um cessar-fogo a partir da segunda semana de outubro. O imenso poder de fogo de Israel – fornecido pelos países ocidentais (especialmente o Reino Unido e os Estados Unidos) – foi utilizado indiscriminadamente contra um povo que vive em zonas densamente povoadas de Gaza.

As imagens dessa violência inundaram as redes sociais e até os telejornais, que não puderam ignorar o que estava acontecendo. Essas imagens superaram todas as tentativas do governo israelense e dos seus patrocinadores ocidentais de justificar as suas ações. Dezenas de milhões de pessoas juntaram-se a várias formas de protesto em todo o mundo, de forma mais significativa nos Estados ocidentais que apoiam Israel, confrontando corajosamente os governos que tentaram retratar a sua solidariedade para com os palestinos – sem sucesso – como antissemitismo. Este ataque foi uma tentativa cínica de utilizar a existência real e horrível do antissemitismo para difamar os protestos. Não funcionou. O apelo a um cessar-fogo em grande escala aumentou, pressionando os governos de todo o mundo a agir.

Em 8 de dezembro de 2023, os Emirados Árabes Unidos (UAE) apresentaram uma resolução “breve, simples e crucial” para um cessar-fogo (as palavras são do embaixador dos UAE na ONU, Mohamed Issa Abushahab). O secretário-geral da ONU, António Guterres, invocou o artigo 99º da Carta, que lhe permite destacar a importância de um evento por meio da “diplomacia preventiva” (o artigo só foi utilizado três vezes anteriormente, por ocasião dos conflitos na República do Congo, em 1960, no Irã, em 1979, e no Líbano, em 1989).

Quase uma centena de países membros da ONU apoiaram a resolução dos Emirados Árabes Unidos. “A população de Gaza está sendo obrigada a se mover como uma bola de pingue-pongue humana – ricocheteando entre trechos cada vez menores do sul, sem nenhum dos elementos básicos para a sobrevivência”, disse Guterres ao Conselho de Segurança da ONU. “Nenhum lugar em Gaza é seguro”. Treze membros do Conselho de Segurança votaram a favor, incluindo a França, enquanto o Reino Unido se absteve. Apenas o embaixador adjunto dos EUA, Robert Wood, levantou a mão para vetar a resolução.

Quatro dias depois, em 12 de dezembro, os egípcios apresentaram praticamente a mesma resolução na Assembleia Geral da ONU, onde o presidente da Assembleia, Dennis Francis (de Trinidad e Tobago), disse: “Temos uma prioridade singular – apenas uma: salvar vidas. Acabem já com esta violência”. A votação foi esmagadora: 153 países votaram a favor da resolução, 10 votaram contra e 23 se abstiveram.

É interessante ver quais os países que votaram contra o cessar-fogo: Áustria, República Checa, Guatemala, Israel, Libéria, Micronésia, Nauru, Papua Nova Guiné, Paraguai e Estados Unidos. Muitos países europeus – da Bulgária ao Reino Unido – abstiveram-se. Mas as coisas são complexas. Nem mesmo a Ucrânia votou com Israel nesta resolução. Se absteve.

O veto dos EUA no Conselho de Segurança e os votos contra na Assembleia Geral são efetivamente votos a favor da Nakba permanente do povo palestino, a “Solução Sem Estado”. Pelo menos, é assim que serão lidos em todo o mundo, não só em al-Mawasi, à medida que as bombas se aproximam, mas também nas manifestações de Nova Iorque a Jacarta.

(*) Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. É redator e correspondente principal da Globetrotter. É editor da LeftWord Books e diretor do Tricontinental: Institute for Social Research. Escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations e The Poorer Nations. Os seus últimos livros são Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism e (com Noam Chomsky) The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of U.S. Power.

(*) Tradução de Raul Chiliani



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