Após enchentes no Rio Grande do Sul, especialistas alertam para os impactos do estresse pós-traumático na saúde mental da população.


Após quase dois meses desde o início das enchentes no Rio Grande do Sul, o estado ainda enfrenta os desafios provocados por essa tragédia. O impacto das perdas humanas, dos desabrigados e da devastação de imóveis e infraestruturas urbanas gera reflexões sobre os aspectos pessoais e a reconstrução em andamento. Contudo, é importante destacar que o desdobramento mais amplo desse evento será observado na saúde mental de toda a população.
As adversidades vivenciadas durante um desastre como esse podem desencadear o transtorno de estresse pós-traumático, afetando não apenas os habitantes do Rio Grande do Sul, mas todos os brasileiros. Sintomas como ansiedade, angústia, depressão e abuso de substâncias podem surgir, mesmo após um período de tempo da catástrofe. Por outro lado, a solidariedade manifestada pode agir como um alívio para o sofrimento psicológico, promovendo a empatia tão necessária em momentos de crise.
A sensação de desamparo diante de uma tragédia climática pode causar um sentimento de “solastalgia”, termo cunhado pelo filósofo Glenn Albrecht para descrever a dor e o pesar pela perda iminente de um ambiente familiar e acolhedor. Essa angústia não se restringe apenas a comunidades que dependem diretamente da natureza, mas também afeta moradores de grandes cidades, aumentando a vulnerabilidade a distúrbios mentais.
Além disso, os impactos psicológicos das tragédias podem perdurar por até uma década, afetando não apenas as gerações atuais, mas também as futuras. Profissionais e voluntários envolvidos nas operações de resgate necessitarão de apoio psicológico para lidar com o estresse e o sofrimento decorrentes desse tipo de evento de grande magnitude.
A importância do fortalecimento dos serviços públicos de saúde mental se destaca como uma medida necessária para prevenir e tratar os transtornos derivados de catástrofes naturais. A atenção à saúde mental da população, portanto, deve ser uma prioridade para garantir o bem-estar tanto dos afetados diretamente quanto da sociedade como um todo, diante de um cenário que infelizmente não garante que essa seja a última tragédia do gênero.
*Jorge Jaber, psiquiatra, membro fundador e associado da International Society of Addiction Medicine, associado da New York Academy Of Sciences, da American Psychiatric Associations – APA e da World Federation Against Drugs – WFAD
Publicidade
