Urgência na Transição Energética: Conferência em Santa Marta Busca Rumo para o Fim dos Combustíveis Fósseis
A guerra no Irã provocou uma crise energética global sem precedentes, resultando na maior interrupção do fornecimento de petróleo da história. Em resposta a essa emergência, aproximadamente 60 países, juntamente com acadêmicos, representantes de comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e do setor privado, se reunirão a partir de 24 de abril em Santa Marta, na Colômbia. O objetivo central do encontro é discutir estratégias para reduzir a dependência mundial de combustíveis fósseis.
Apesar da ausência de potências responsáveis por grandes emissões de CO₂, como China e Estados Unidos, e de países árabes, a conferência — co-organizada pela Colômbia e Holanda — contará com a presença de países significativos na produção de petróleo e gás, incluindo Brasil, Canadá, México e Noruega, além de grandes produtores de carvão, como a Austrália.
Este evento ocorre apenas cinco meses após a COP30, que não conseguiu delinear uma estratégia eficaz para combater a crise climática, em especial a eliminação dos combustíveis fósseis. O impasse em Belém evidenciou as limitações do multilateralismo climático e lançou dúvidas sobre a efetividade das negociações sob a égide da ONU.
A guerra no Irã intensificou a urgência de se reconhecer que a dependência de petróleo, gás e carvão não é apenas um desafio ambiental, mas um risco significativo à segurança energética global. Como destacou Natalie Jones, assessora sênior do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), a atual crise sublinha a necessidade premente de acelerar a transição para energias renováveis, garantindo, assim, segurança energética e acesso à energia.
Com a dianteira desse cenário, os governos encaram um dilema crítico: aprofundar a dependência dos combustíveis fósseis, afetando ainda mais a vulnerabilidade a choques de preços, ou mobilizar esforços para uma transição rápida a fontes renováveis e eletrificação.
A conferência em Santa Marta pretende abordar esse vazio deixado pela COP30, oferecendo um espaço mais flexível e informal para discutir a eliminação dos combustíveis fósseis, sem as amarras das negociações tradicionais da ONU. O foco não está em metas vinculativas, mas em identificar "caminhos e mecanismos" que possam facilitar essa transição.
Irene Vélez, ministra do Meio Ambiente da Colômbia, enfatiza que nunca antes houve um espaço dedicado para discutir abertamente o tema da eliminação gradual dos combustíveis fósseis. "Ninguém diz que o caminho será fácil, mas é necessário encarar as dificuldades", afirma. A vice-ministra Luz Dary Carmona complementa: "O objetivo não é convencer, mas articular ações entre os convencidos da urgência da transformação".
Além disso, a iniciativa complementa um projeto paralelo sob a liderança do Brasil, que busca elaborar um roteiro global para essa transição energética, especialmente após a COP30, onde não foi possível adotar um "mapa do caminho" formal.
Entretanto, a pressão dentro do Brasil também é significativa. Organizações científicas como a SBPC e a ABC solicitaram a implementação de um plano nacional para a transição energética, alertando sobre os riscos crescentes associados à inação em um país que é especialmente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas.
Análises recentes indicam que a guerra no Irã resultou em custos globais que variam de US$ 104 bilhões a US$ 111 bilhões no primeiro mês, refletindo a fragilidade de uma economia ainda tão dependente de combustíveis fósseis. O jornalista e ambientalista Bill McKibben, fundador da 350.org, ressalta que nossa confiança nos combustíveis fósseis trouxe riqueza para poucos, mas miséria para muitos.
A conferência de Santa Marta não resolverá as contradições enfrentadas, mas pode ser um passo significativo rumo a uma compreensão mais clara das soluções e desafios que emergem dessa encruzilhada energética e climática. Essa é uma oportunidade para iniciar um diálogo que vai além do simples reconhecimento das questões climáticas, envolvendo aspectos de segurança e estabilidade social.
Estarei em Santa Marta durante toda a semana, e convido você a acompanhar os desdobramentos dessa importante conferência através do site da Agência Pública e em nosso podcast semanal Bom dia, fim do mundo.
