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Recreios nas escolas públicas do Rio de Janeiro são impactados pela falta de espaço e lógica produtivista.

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Recreios nas escolas públicas do Rio de Janeiro são impactados pela falta de espaço e lógica produtivista.

27 de abril de 2026

Autores:

Lucia Rabello de Castro, Professora Titular do Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)


Nos últimos anos, o recreio escolar tem enfrentado uma drástica redução, produto tanto de uma estratégia para combater a violência entre estudantes quanto da pressão por resultados acadêmicos e da falta de infraestrutura nas escolas públicas. Essa realidade preocupa educadores e especialistas, pois o espaço destinado à recreação está cada vez mais escasso.

Esse foi um dos achados centrais da pesquisa que coordenei, intitulada Fazendo Comuns: a escola como projeto intra e co-geracional, vinculado ao Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Infância, Adolescência e Juventude (NIAJ) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O projeto investiga a escola como um espaço crucial para o desenvolvimento de “comuns” entre crianças, entendidos como experiências coletivas que elas consideram marcantes e significativas. Um dos resultados mais impactantes foi a clara demanda dos alunos por um recreio adequado, uma vez que eles frequentemente se veem sem o tempo e espaço necessários para brincar.

A pesquisa, realizada com aproximadamente 2.500 crianças em 110 turmas de 34 escolas no município do Rio de Janeiro entre 2019 e 2022, após a reabertura das escolas pós-pandemia, revelou uma profunda insatisfação com a situação atual do recreio. A metodologia adotada incluiu seis livretos ilustrados, que apresentavam diferentes cenários escolares, instigando discussões em grupo sobre as vivências das crianças.

Com isso, procuramos ouvir as perspectivas dos estudantes, que, de maneira orgânica e consistente, destacaram como a falta de tempo e as limitações impostas ao recreio prejudicam momentos de brincadeiras, conversas e liberdade dentro do ambiente escolar.

Um espaço vital para criatividade e liberdade

A experiência escolar é percebida por muitos alunos como uma limitação à criatividade e à liberdade, sufocando a vitalidade juvenil. Em diversas escolas, a reivindicação é a mesma: o recreio deve ser um tempo livre e um espaço onde possam brincar, descansar e interagir.

Os resultados geraram um desejo de tornar públicas as discussões sobre infância e formas de participação social, envolvendo Conselhos de Direitos das Crianças, Defensoria Pública e Poder Judiciário. O culminar desse esforço ocorreu em um evento na Escola de Magistratura do Rio de Janeiro, intitulado “As crianças falam? – Mobilizações Públicas acerca do recreio escolar”, realizado em novembro de 2024.

O projeto culminou no livro “Fazendo comuns na escola”, que será lançado em um evento aberto ao público no dia 8 de maio de 2026, no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (UFRJ). A obra reflete sobre o percurso da pesquisa e defende as demandas políticas das crianças, apresentando como elas compartilham suas vivências e buscam, coletivamente, formas de agir em prol de suas transformações.

O livro também analisa como docentes da rede pública respondem a essas demandas, apresentando um manifesto elaborado em conjunto com os pesquisadores. O reconceito do recreio escolar se revela central na análise, não apenas como uma demanda legítima dos alunos, mas como uma visão de uma vida que transcende o trabalho produtivo, convidando o leitor a imaginar um mundo mais democrático e coletivo, fundamentado nas aspirações infantis.

Em tempos de transformação, é crucial reafirmar os valores da recreação como essenciais para a regeneração do mundo e a construção de projetos alternativos de sociedade.



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