Por Guilherme Ary Plonski, professor sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e do Instituto de Estudos Avançados da USP
A etimologia do termo "vespasiano", em italiano, para mictório é reveladora. A expressão remete ao imperador romano Vespasiano, também conhecido por ter reprimido a primeira grande rebelião judaica contra Roma, resultando na devastação de Jerusalém e no exílio de um povo. Esse episódio, marcado pela fragilidade de um regime político e pelas consequências devastadoras que perduraram por milênios, contrasta com a durabilidade do Arco de Tito em Roma, símbolo da vitória dos vencedores.
Durante seu governo, Vespasiano promoveu uma reforma financeira que incluía um imposto inesperado: a taxação da urina coletada em mictórios públicos de Roma, que era utilizada na indústria têxtil. Sua famosa frase, “dinheiro não tem cheiro” (“pecunia non olet”), capturou um conceito duradouro, ecoando em literaturas e no próprio cenário jurídico. A legislação brasileira, por exemplo, estabelece que a origem dos recursos não afeta sua obrigatoriedade tributária, refletindo essa mesma ideia.
Contrapõe-se a isso a sensibilidade da academia em relação à proveniência dos fundos. As universidades, embora possam ter blindado sua governança frente a recursos de natureza duvidosa, desenvolvem um rastreador crítico em busca de “odores” que revelam a legalidade e a ética das doações, notando aspectos como a natureza jurídica do doador, sua reputação e os riscos à autonomia da instituição.
Nos Estados Unidos, a tensão entre financiamento e autonomia acadêmica se intensifica, notadamente nas universidades da Ivy League e no MIT. Enquanto algumas instituições adotam uma postura conciliadora frente a pressões externas, outras reagem de forma combativa. Exemplos como o MIT, que historicamente navegou entre fundos públicos e privados, mostram que a origem do dinheiro pode ser um tema delicado e controverso.
O MIT se destacou ao criar modelos inovadores de financiamento ao longo de sua história, desde a combinação de mensalidades e doações até a realização de contratos com empresas. Essa dependência, amplificada após a Segunda Guerra Mundial, gerou críticas internas quando os interesses corporativos começaram a colidir com a autonomia acadêmica.
Na atualidade, modelos híbridos de financiamento emergem, onde a busca por recursos de diversas fontes é essencial. O desafio permanece: como manter a integridade acadêmica em um cenário onde o dinheiro, em suas diferentes origens, pode se tornar um agente de controle e comprometimento da autonomia.
As universidades devem refletir sobre suas relações com agentes externos e considerar a advertência de John Campbell Merriam: "De onde vem o dinheiro, também vem o controle".
Essa perspectiva é crucial para a preservação da liberdade acadêmica em tempos de crescente pressão política e financeira.
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