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Cerejeiras: A Fascinante Jornada da Beleza Japonesa até Aqui

Cerejeiras: A Fascinante Jornada da Beleza Japonesa até Aqui

2 de maio de 2026

Autores:

Guilherme Silva



A literatura brasileira sempre abordou as flores com uma intensidade ímpar. Mário de Andrade, em sua crônica de 1930, desvendou a vitória-régia da Amazônia com uma sensualidade que perdura. O autor da Rua Lopes Chaves desnudou o caule e as sépalas que, como facas, ferem a mão, e enfatizou o perfume sutil que, de perto, se transforma em enjoativo; revelou ainda que, no processo de envelhecimento da flor, um pequeno grupo de besouros cobertos de pólen a acompanha, sempre prestes a expor a inquietante fusão de belezas e repulsas.

Em sua obra, Mário também criou o poema “Girassol da Madrugada”, onde a flor expressa um amor indefinido: “carne que é flor de girassol, sombra de anil”. Manuel Bandeira aspirava que seu último poema refletisse a beleza das flores sem fragrância, enquanto Adélia Prado infundiu sua poesia com hortênsias e rosas, sem abdicar da carnalidade. Com ou sem perfume, cada um tinha sua flor.

No Brasil, conhecido como o país das Terras Baixas, onde a predominância é o cinza, chuvoso e ventoso, o mês de março traz a floração das cerejeiras. É inegável que elas despertam uma sensação especial. Não chega a ser alegria pura, mas a visão das sakuras em flor se transforma em um deleite singular. Esta beleza efêmera dura apenas uma semana — às vezes menos, dependendo da força do vento, que os ciclistas costumam respeitar.

Em 1928, o autor Motojiro Kajii, cuja obra inclui contos marcantes, capturou a beleza violenta da floração em uma narrativa curta que se abre com a intrigante frase: “Debaixo das cerejeiras estão enterrados cadáveres”. Sua mensagem subjacente sugere que a beleza das flores provém de algo imundo e denso logo abaixo da superfície. Kajii, que morreu jovem, aos 31 anos, talvez tenha apressado suas reflexões com essa visão sombria. Assim como o carnaval carrega um avesso de dor e exaustão, a Sakura, com suas tonalidades cor-de-rosa e branca, remete a um Japão mais sombrio.

A jornada das cerejeiras até Haia revela outra faceta desse fenômeno. As sakuras têm sido, por mais de um século, ferramentas de diplomacia, semelhante ao papel que pandas desempenham na diplomacia chinesa.

Eliza Ruhamah Scidmore, uma escritora, fotógrafa e geógrafa, foi a primeira mulher a se juntar ao conselho da National Geographic Society em 1892. Aproveitando o fato de ter um irmão diplomata, Eliza visitou o Japão em 1885, onde decidiu levar a beleza das cerejeiras para Washington. Após várias tentativas e recusas dos responsáveis pelos jardins, ela continuou a insistir.

Em 1909, Eliza encontrou apoio inesperado em Helen Taft, que havia visitado o Japão durante o governo de seu marido. Helen, que guardava boas memórias das cerejeiras, abraçou a ideia sem hesitação, e em abril daquele ano o envio das árvores foi confirmado.

Duas mil cerejeiras foram despachadas, um simbolismo carregado de esperança, pois a relação entre os EUA e o Japão estava em águas turbulentas. Com a vitória japonesa sobre a Rússia em 1905, mediações norte-americanas haviam deixado o país do Sol Nascente com a sensação de um triunfo sem reconhecimento. A situação se agravou em 1907, quando os EUA impuseram discriminação aos imigrantes japoneses.

As árvores chegaram em janeiro de 1910, mas, após a inspeção das caixas, pragas foram encontradas, levando o presidente Taft a ordenar a queima das mudas. Essa decisão foi vista no Japão como mais uma rejeição no contexto de tensões diplomáticas. Mas Eliza e Yukio Ozaki, o prefeito de Tóquio, persistiram. Ozaki, defensor do governo representativo, via o plantio das cerejeiras como um genuíno gesto de aproximação.

Em 1912, Ozaki enviou novas mudas, que foram plantadas em uma cerimônia que contou com a presença de Eliza, depois de duas décadas de esforços. As duas primeiras cerejeiras, plantadas por Helen Taft e a esposa do embaixador japonês, ainda estão em pé, apesar da maioria já ter sido substituída.

As cerejeiras possuem um ciclo de vida em torno de 30 anos, mas algumas variedades podem atingir até 100 anos. Ozaki, que viveu até os 93 anos, considerou o ato de plantar as cerejeiras o auge de sua carreira política e defendia o desarmamento durante os conflitos entre os dois países.

O Japão começou a doar cerejeiras mundialmente, com Berlim recebendo suas árvores em 1989 e Amsterdam em 2000, onde cada uma das quatrocentas sakuras tem um nome, seja japonês ou holandês. Em Haia, trazem beleza às margens da Bankastraat e perto do Palácio da Paz.

No Brasil, na década de 1970, associações nipo-brasileiras introduziram as primeiras mudas de cerejeiras no Parque do Carmo, em São Paulo. Apesar das dificuldades de adaptação, o parque abriga hoje cerca de quatro mil árvores. A Festa das Cerejeiras acontece em agosto, no inverno do Hemisfério Sul, oferecendo um encanto oposto à floração que ocorre em março no Japão.

E como um epílogo, em Garça, interior paulista, Nelson Koske Ichisato, um imigrante determinado, plantou cerejeiras em 1979, desafiando a crença local de que o clima não era propício. Suas mudas prosperaram e, décadas depois, o festival da cerejeira em Garça atrai centenas de milhares de visitantes, e Nelson é lembrado como o “Pai das Cerejeiras” do Brasil.



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