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Ajustando Expectativas: O que Esperar do Novo Papa – Jornal da USP

Ajustando Expectativas: O que Esperar do Novo Papa – Jornal da USP

12 de maio de 2025

Autores:

Redação


A Eleição de Robert Prevost: Um Marco na História do Humanitarismo da Igreja

Por Renan William dos Santos, especial para o Jornal da USP

A fumaça branca já se dissipou, mas as expectativas em torno do novo papa ainda ecoam em Roma. A escolha de Robert Prevost, agora Papa Leão XIV, não indica mudanças radicais na instituição, mas representa a continuidade da trajetória simbolizada por Francisco: um esforço deliberado para revitalizar a presença global da Igreja e fortalecer o que se pode chamar de seu "capital humanitário".

A adoção do nome Leão XIV é um indicativo claro desse caminho. Ele evoca a herança de Leão XIII, autor da célebre encíclica Rerum Novarum (1891), que abordou os desafios do industrialismo e a questão operária à beira do século XX. Nesse contexto, Rerum Novarum se posicionou como uma alternativa cristã aos extremos do liberalismo e do socialismo.

A famosa "terceira via" já se consolidou há décadas, articulando princípios de justiça social e dignidade no trabalho. Esta doutrina é um pilar dos discursos socioambientais de Francisco. Em essência, a "ecologia integral" não representa uma inovação total, mas um aggiornamento que recontextualiza a linguagem da classe operária para incluir os "pobres da terra", refugiados e a noção de "casa comum".

Ao adotar o nome de Leão XIV, o novo papa institucionaliza uma linha que já estava em curso. Embora seja improvável que Prevost reproduza o estilo carismático de Francisco, a expectativa é que ele mantenha e, até mesmo, consolide o foco em uma abordagem humilde e humanitária.

Prevost, com sua formação agostiniana, traz consigo um legado de pregação entre os pobres e de compromisso com a simplicidade. Isso o torna um líder que une evangelização e caridade de maneira intrínseca. Sua experiência pastoral na Amazônia o prepara para aprofundar a conexão entre responsabilidade social, evangelização e cuidado ambiental, diante de comunidades diretamente impactadas pela degradação.

É plausível que o discurso socioambiental católico ganhe força sob Leão XIV, embora seja importante abordar a teologia institucional com cautela. O ambientalismo cristão, mesmo em sua versão mais atualizada, ainda assim se baseia numa visão hierárquica da criação, na qual a humanidade ocupa um lugar de destaque e a natureza é vista como um recurso a ser gerido, não respeitado por si só.

Recentemente, o papa fez uma declaração sobre o domínio humano sobre a criação que suscitou entusiasmo. A frase, celebrada como sinal de progresso, levanta questões sobre se a defesa de um "domínio benevolente" é o máximo que a crítica ao antropocentrismo pode alcançar. Para muitos, essa abordagem ainda soa limitada.

O otimismo em relação à eleição de Leão XIV reflete uma lógica onde gestos de moderação são rapidamente convertidos em indícios de "progressismo". O que muitos parecem ignorar, no entanto, é que as mudanças não se traduzem em inovação real, mas em ajustes na linguagem que não alteram a doutrina. A insistência em ver progresso onde há apenas sutilezas pode obscurecer uma constante subserviência às normativas tradicionais.

Adicionalmente, há preocupações com o tratamento das identidades de gênero sob a nova liderança, visto que as declarações de Prevost já indicam uma postura crítica em relação à inclusividade. O que se observa é um retrocesso mais sugerido do que declarado.

A eleição de Leão XIV também reflete uma estratégia geopolítica. Em um momento em que as tensões entre a Santa Sé e conservadores norte-americanos estavam evidentes, escolher um papa americano pode amenizar essas fricções, facilitando o diálogo. Leão XIV, com sua formação missionária e entendimento das realidades tanto do Norte quanto do Sul, reúne habilidades para harmonizar as tensões internas da Igreja.

Em resumo, a escolha de Leão XIV é uma continuidade cuidadosa: um meio de gerenciar a instituição em tempos desafiadores. Seu nome reverbera a doutrina de Leão XIII; sua espiritualidade representa a humildade de Francisco; sua trajetória na Amazônia o credencia como defensor da justiça social e ambiental. Universalmente, a Igreja continua a ser uma das instituições mais resilientes da história ocidental.

Renan William dos Santos é doutor em Sociologia pela USP e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Sua tese "Orientações religiosas sobre a conduta ecológica" foi reconhecida como a melhor da USP em Ciências Humanas em 2024.



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