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A Guerra e suas Consequências no Aquecimento Global: Uma Perspectiva Inédita sobre a Crise Climática

A Guerra e suas Consequências no Aquecimento Global: Uma Perspectiva Inédita sobre a Crise Climática

5 de maio de 2026

Autores:

Carol Tomaz, Doutoranda em Novas Economias e Inovação Social, Universidade de Brasília (UnB)


Título: Conflitos Armados: Um Impacto Silencioso na Crise Climática Global

Os conflitos armados não se limitam a ceifar vidas e devastar terras; eles também liberam milhões de toneladas de gases de efeito estufa, contribuindo silenciosamente para a crise climática que o mundo enfrenta. Apesar de sua relevância, esses dados frequentemente permanecem à margem das metas e relatórios nacionais sobre emissões de carbono.

Um estudo revela que, nos primeiros 14 dias de guerra no Irã, a atividade bélica resultou na emissão de 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente—um número superior ao que El Salvador emite em um ano. Essa guerra estava apenas no início e levanta uma questão crucial: esse impacto será contabilizado nos inventários climáticos oficiais? A resposta, infelizmente, tende a ser negativa.

A Guerra como Quarto Maior Emissor Global

A pesquisa do Conflict and Environment Observatory indica que, se as forças armadas de todo o mundo fossem um país, seriam o quarto maior emissor de gases de efeito estufa, com cerca de 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano—mais de 5% das emissões globais. Apenas China, Estados Unidos e Índia superam esse número.

Entretanto, a inclusão dessas emissões no debate climático é rara. Embora o Acordo de Paris exija que as emissões militares sejam reportadas nos inventários nacionais, isso se dá de forma voluntária e fragmentada. Até 2025, apenas seis países—Alemanha, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Hungria e Noruega—reportaram seus dados de forma detalhada à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). O restante do mundo simplesmente não fornece essa informação.

As contagens geralmente incluem apenas o consumo energético de bases e frotas militares, deixando de lado os aspectos mais críticos, como a fabricação e uso de armas, logística, suprimentos e os resíduos gerados por guerras.

Mais alarmante ainda é que, durante conflitos, as emissões podem disparar, desafiando a capacidade de absorção do nosso sistema climático. Uma pesquisa da ONG Política por Inteiro destaca que a guerra na Ucrânia gerou 311,4 milhões de toneladas de CO₂ em quatro anos de combate, com 37% desse total vindo diretamente dos combates. Em Gaza, a emissão chegou a 33,2 milhões de toneladas em apenas 15 meses.

A Paradoxo da Destruição que Gera Lucros

Em um cenário onde cada tonelada de carbono é crucial para alcançar as metas climáticas, a guerra acelera o acúmulo de gases de efeito estufa e amplia a crise. O que torna a situação ainda mais paradoxal é que a destruição pode contribuir para o crescimento econômico—a fabricação de armas e a reconstrução de estruturas danificadas, por exemplo, inflacionam o PIB, sem distinção entre atividades prejudiciais e benéficas.

Os economistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi já alertaram que o PIB é uma medida de atividade econômica, e não de bem-estar. Atividades destrutivas, como a devastação de ecossistemas, se traduzem em crescimento econômico, mas ignoram os custos sociais e ambientais reais.

Em 2025, os gastos militares globais chegaram a um recorde de US$ 2,9 trilhões—aproximadamente US$ 334 para cada cidadão do planeta. Com apenas 15% dessa quantia, ou cerca de US$ 387 bilhões, seria possível financiar toda a adaptação climática necessária nos países em desenvolvimento, segundo estimativas da ONU. Isso significa que recursos que poderiam ser investidos em saúde, educação e transição energética estão sendo desviados para armamentos.

Enquanto países mais ricos debatem metas de descarbonização em grandes conferências, continuam a destinar quantias crescentes ao rearmamento, em um ciclo vicioso de “crescimento militarizado”. Esse fenômeno reflete uma realidade onde a segurança é priorizada em detrimento da cooperação e do desenvolvimento sustentável.

Efeitos Climáticos Transcendentes

Os impactos climáticos de uma guerra não se limitam às suas fronteiras. Como observam estudiosos como Carlos Nobre, Johan Rockström, Robert Muggah e Lourenço Bustan, um conflito no Golfo pode ter repercussões diretas no desmatamento no Brasil e em outras regiões.

As tensões geopolíticas afetam o mercado de energia, aumentando a demanda por fontes alternativas e, consequentemente, pressionando o uso da terra e causando desmatamento. Florestas, que deveriam ser consideradas essenciais para a estabilidade climática, tornam-se presas fáceis às lógicas de conflito.

A Necessidade de Novas Métricas

A cadeia de causalidade entre conflitos e degradação ambiental torna-se clara: crises geopolíticas podem precipitar crises ecológicas. Portanto, mais do que simplesmente incluir as emissões militares nos relatórios oficiais, é urgente repensar nossas ferramentas de análise e decisão política. Medir progresso apenas pelo PIB em um mundo repleto de crises não é mais viável.

Precisamos de métricas que exponham a destruição do capital natural e os custos sociais das instabilidades. Sem essas análises críticas, cada ato de agressão se transformará em uma dívida ecológica, invisível nas contas, mas devastadora nos ecossistemas.

Assim, enquanto navegamos por um mar de incertezas, é essencial que nossas ações futuras sejam guiadas por uma compreensão mais profunda das interconexões entre guerra, economia e clima.



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