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Contudo, como tem mostrado a Folha em uma série de reportagens, cisternas estão sendo construídas não onde são mais necessárias de acordo com estudos técnicos, mas onde aponta o interesse político.
Quão importante é esse problema?
Um trabalho de Daniel da Mata, Lucas Emanuel, Vitor Pereira e Breno Sampaio, publicado no início deste ano, nos traz respostas a essa pergunta.
Os autores estudaram os efeitos do programa de construção de cisternas na saúde de crianças ao nascer. Comparando mulheres que tiveram bebês no mesmo mês, mas tiveram acesso a cisternas em diferentes estágios da gravidez, eles estimam o efeito no peso dos recém-nascidos, utilizando técnicas estatísticas apropriadas.
Um primeiro resultado é que o acesso a cisternas leva, em média, a um ganho de peso dos bebês ao nascer. O fato de esse efeito ser detectável por testes estatísticos evidencia a importância de facilitar o acesso a água potável na região.
O efeito, porém, não é o mesmo em todos os locais.
Para casas próximas a fontes de água potável, os testes estatísticos não captam um efeito de cisternas no peso de recém-nascidos. O impacto pode existir, mas não é grande o suficiente para ser detectado pelos testes.
Por outro lado, para casas com uma distância até fontes de água superior a 3 quilômetros, o efeito é muito forte. Há bastante incerteza nas estimativas, mas os resultados sugerem que nesses locais, o acesso a cisternas durante todo o período da gravidez aumentaria o peso dos recém-nascidos em cerca de 100 gramas, em média.
Os efeitos devem ser heterogêneos. Algumas famílias conseguem comprar ou buscar água; outras têm mais dificuldade. Um efeito médio desse tamanho significa que em vários casos, cisternas nesses locais são cruciais para o bebê nascer com saúde.
Estudos técnicos da Embrapa mostram os locais que mais precisam de cisternas. Contudo, elas estão sendo construídas em municípios com padrinhos políticos em detrimento a locais mais distantes de fontes de água.
O trabalho mostra que essa má alocação de recursos públicos tem um forte impacto negativo na saúde das crianças. Acho difícil exagerar o tamanho desse problema.
Cisternas requerem manutenção para evitar que a água fique infectada. O estudo mostra que isso é de fato muito importante. Os autores mostram que os efeitos positivos das cisternas estão concentrados em mães que têm pelo menos três anos de estudo, e que mães com esse mínimo de educação são mais propensas a realizar os procedimentos para tratar a água.
Construir cisternas, então, não resolve todo o problema. Mas ajuda muito.
Talvez, quem sabe, a atenção dada a esse problema faça com que estudos técnicos tenham um peso maior na determinação dos locais para construção de cisternas. Escrevemos com uma ponta de esperança.
O ponto mais geral é que temos um grande problema na alocação de recursos públicos e muito incentivo para os eleitores nesses municípios votarem num padrinho político que participe desse jogo.
Temos a tecnologia. Temos os recursos. Sabemos onde as cisternas devem ser construídas.
Porém, não temos um sistema político que funcione suficientemente bem para que o dinheiro seja investido onde ele é mais importante. Mesmo num caso em que a consequência para a saúde das pessoas aparece até no tamanho dos bebês.