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Nos últimos quatro anos, a cada dia 25 de abril, enquanto o sol já mais quente nos retirava os pesados casacos exigidos durante o longo inverno, sei que os garotos aqui sorriam com esperança quando você decretava que “canta a primavera, pá”.
Diante de tua presença permanente por aqui, pensei que não bastaria apenas me somar às milhões de vozes que, em uníssono, te parabenizam pelos 80 anos.
Esta carta que te escrevo, portanto, é apenas um agradecimento. Gratidão por ter, nessas últimas décadas, ajudado a desenhar o contorno da nossa identidade. Por ter dado sentido e palavras ao inconformismo, a indignação, ao amor, à resistência e ao futuro. Nas noites frias ou nas festas em êxtase.
Gratidão por ter ajudado a ensinar aos meus filhos a serem também brasileiros, entre a multiplicidade de identidades. Uma “construção”. Por ser uma das cores primitivas de uma imagem de vida que coloca a arte como prisma privilegiado.
Junto com Gil, Rita, Zélia, Milton, Elis, Ney, Caetano, Monica e tantos outros, vocês são as partituras de nossa Constituição. Os verdadeiros passaportes dessa identidade que, como num caleidoscópio, surpreende a cada giro. Uma nova imagem a cada estrofe da poesia que vocês transformam em hinos nacionais.
Uma pessoa pode falar várias línguas de forma fluente. Mas, no meu caso, costumo dizer que falo todas elas em português. Não (apenas) por causa do sotaque. Mas por ser o português meu mapa para acessar algo que nenhum outro instrumento chega: meu inconsciente. O lugar “onde os sonhos serão reais”.
Nos últimos quatro anos, o dia 25 de abril se tornou especial nesta região. Com a chegada da primavera e o sol aumentando sua intensidade, os sorrisos dos garotos se tornavam mais frequentes. E tudo isso acontecia porque, nesse dia, alguém proclamava: “canta a primavera, pá”.
Essas palavras faziam parte de um ritual de alegria e esperança, pois significavam mais do que apenas a mudança de estação. E nesse contexto, uma figura central se destacava: um artista que completava 80 anos e era presença constante nesses momentos.
Por isso, decidi escrever esta carta como forma de agradecimento. Agradeço por ter contribuído, ao longo das últimas décadas, para a construção da nossa identidade. Por ter expressado em suas músicas e palavras o inconformismo, a indignação, o amor, a resistência e a esperança. Seja nas noites frias de inverno ou nas festas animadas da primavera.
A sua influência vai além da música, ela se estende para a formação dos meus filhos como cidadãos brasileiros. Você é parte fundamental de uma “construção” identitária que abraça a diversidade e valoriza a arte como elemento essencial.
Ao lado de outros grandes artistas, vocês são como as notas musicais de uma sinfonia nacional. São os pilares que sustentam nossa identidade, que se revela de forma surpreendente a cada verso transformado em hino.
Para mim, o português não é apenas uma língua, é o caminho para acessar o meu inconsciente, o lugar onde os sonhos se tornam reais. Obrigado por ser parte desse universo que se manifesta através da arte e da música, obrigado por ser um símbolo da nossa brasilidade.