BRICS: Caminhos Para uma Aliança Militar a Longo Prazo?
Na última semana, os chanceleres dos países membros do BRICS se reuniram em Nova Deli, Índia, em preparação para a aguardada cúpula que ocorrerá em setembro. O encontro, que contou com a presença do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, abordou aspectos críticos da atual conjuntura internacional, como as pressões geopolíticas e a importância do fortalecimento do multilateralismo.
Durante as discussões, a Organização das Nações Unidas (ONU) foi um tema central. Os ministros destacaram a necessidade de promover ações que garantam a paz mundial e o desenvolvimento sustentável, além de defenderam reformas em instituições multilaterais, incluindo a própria ONU, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e as entidades de Bretton Woods.
Em entrevista ao podcast Mundioka, especialistas em relações internacionais analisaram o papel do BRICS como uma alternativa viável a organismos tradicionais. Valdir Bezerra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de São Petersburgo, adverte que os debates vindouros dentro do grupo girarão em torno da reconfiguração de poder global e das tensões que pairam sobre os Estados-membros. Para Bezerra, o BRICS defende uma ordem que, segundo ele, "parece desvanecer-se", especialmente após ações do Ocidente que desconsideraram normas já estabelecidas.
Hugo Albuquerque, jurista e analista geopolítico, sugere que, para o BRICS tornar-se um gigante diplomático, é fundamental que os países membros desenvolvam uma "maior vontade política" e um alinhamento estratégico. "Não adianta reunir mais países. É necessário estabelecer uma base comum e trabalhar, inclusive, para uma aliança militar a longo prazo, algo que ainda não existe no BRICS, mas que se observa em organizações como a Cooperação de Xangai", afirmou.
A especialista em Relações Internacionais Denilde Holzhacker ressaltou que alguns membros do BRICS estão focados na desdolarização das transações comerciais, que poderá ser um dos principais temas discutidos na cúpula de setembro. A dinâmica de uso de moedas locais já é uma realidade entre países como China e Rússia, que realizam 90% de seu comércio em yuan e rublo.
Tensão e Oportunidade
O atual cenário mostra que a diplomacia internacional enfrenta um momento de tensão, especialmente devido às políticas ocidentais. O desafio para os Estados Unidos em manter sua hegemonia, especialmente em regiões estratégicas como o Oriente Médio, contrasta com a ascensão de potências como o Irã, membro do BRICS, que tem se afirmado no controle do Estreito de Ormuz.
O contexto atual, marcado por uma luta pelo poder e influência, traz à tona a discussão sobre a relevância do BRICS como articulador de uma nova ordem global. As incertezas no comportamento político americano, com a predominância do dólar em xeque, colocam cada vez mais o bloco em uma posição estratégica, potencialmente capaz de moldar uma nova arquitetura de poder internacional.
Assim, o futuro do BRICS pode muito bem depender de sua capacidade de inovação e adaptação em meio a um cenário global em evolução, onde a construção de alianças sólidas e um comprometimento com a desdolarização poderão definir seu papel nas próximas décadas.
Fonte: Sputnik Brasil.
