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“Feminilidade Sem Feminismo: A Tática da Extrema-Direita Para Conquistar o Voto das Mulheres”

“Feminilidade Sem Feminismo: A Tática da Extrema-Direita Para Conquistar o Voto das Mulheres”

18 de maio de 2026

Autores:

Tathiana Chicarino, Cientista política e coordenadora da graduação em Sociologia e Política, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)


Voto Feminino: Uma Luta que Persiste Quase um Século Depois

Quase um século após a conquista do voto feminino no Brasil, um direito formalizado em 1932 e garantido na Constituição de 1934, os desafios enfrentados pelas mulheres em matéria de direitos políticos permanecem intensos. As disputas sobre o papel e os direitos das mulheres na sociedade se acentuam especialmente em épocas eleitorais.

Historicamente, a exclusão das mulheres visava preservar o poder de elites masculinas. Com a introdução do voto feminino, a controvérsia migrou para a capacidade de mobilizar e direcionar esse novo eleitorado. O voto além de ser uma ferramenta de participação democrática, começou a servir como um meio de sustentar ou desafiar o status quo social.

A trajetória da democracia no Brasil, marcada por períodos de autoritarismo, como o Estado Novo e a ditadura civil-militar, demonstrou que tanto a limitação quanto a mobilização do voto feminino eram centrais nas batalhas políticas. Hoje, no entanto, essa disputa ocorre em novos contextos.

Nos tempos atuais, sob um conservadorismo resurgente e a ascensão da extrema-direita, as mulheres ocupam uma posição estratégica nas manobras políticas, representando não apenas um voto, mas um campo de batalha ideológico que envolve valores e visões de sociedade.

Disputa Ideológica pelo Voto Feminino

As mulheres constituem o maior grupo eleitoral do país e desempenham um papel essencial na reprodução da vida social. Questões relacionadas a maternidade, trabalho doméstico, cuidado, feminismo, religião e papéis de gênero dominam a arena ideológica em torno do voto feminino.

Para entender o comportamento eleitoral das mulheres, é vital considerar múltiplas dimensões da vida social. O ato de votar não é meramente um reflexo de preferências ou da influência imediata de campanhas, mas um fenômeno suscetível a uma diversidade de fatores sociais, econômicos e culturais. Entre eles, destaca-se o voto econômico — a tendência de apoiar candidatos ou partidos que trazem melhorias concretas nas condições de vida.

Os impactos de políticas públicas e condições econômicas frequentemente reverberam com força no eleitorado feminino, especialmente entre aquelas que assumem a responsabilidade pelo cuidado da família e da organização do lar.

Além disso, as experiências cotidianas e os processos de socialização que vivenciamos moldam nossas escolhas políticas. O ambiente familiar, as instituições educacionais, os círculos sociais e as organizações comunitárias influenciam como percebemos a realidade e, consequentemente, como votamos.

A posição de uma mulher na sociedade, determinada por fatores como renda, profissão, idade e gênero, exerce influência sobre seu comportamento eleitoral. Em uma sociedade complexa, a estratificação do eleitorado e o desenvolvimento de estratégias para convencê-lo se tornam cruciais.

De um lado, temos o trabalho produtivo, atrelado à geração de mercadorias e serviços. Do outro, está o trabalho reprodutivo, frequentemente invisível e não remunerado, que sustenta a vida social. Esta dinâmica, tradicionalmente atribuída às mulheres, tornou-se um campo de batalha para as ideologias conservadoras.

Feminismo e a Ascensão de Mulheres Conservadoras

No panorama atual, observa-se a ascensão de mulheres identificadas com ideais de direita e extrema-direita, que frequentemente refletiam uma ideologia patriarcal que delimita papéis tradicionais de gênero. O crescimento de figuras como Damares Alves e Carla Zambelli não ocorreu por acaso, mas como resultado de uma estratégia bem delineada.

Para as eleições de 2026, já se desenham novos nomes, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, que se posicionam com ênfase em uma “política feminina” em oposição à “política feminista”. Michelle, em particular, defende uma ideia de submissão “saudável”, enfatizando a priorização do cuidado com a família, mesmo que também reitere seu papel fora de casa.

Essa visão implica que as mulheres devem colaborar, em vez de ocupar papéis de destaque. Nesse paradigma, a divisão de tarefas se mantém historicamente desigual, perpetuando desigualdades e reforçando padrões patriarcais.

O discurso associativo, que conecta essas ideias ao movimento das tradwives — mulheres que exaltam a vida tradicional como estilo de vida — denota a maneira como a ideologia conservadora busca avançar no campo político.

O Desafio dos Direitos Fundamentais

A crescente popularidade das hashtags relacionadas a essa ideologia nas redes sociais evidencia uma mobilização significativa. Num universo onde o partido Liberal (PL) investe pesadamente para engajar mulheres conservadoras em cargos políticos, cresce a necessidade de refletir sobre a pluralidade dos direitos femininos.

Embora a democracia deva abarcar todo o espectro ideológico, as mulheres historicamente enfrentaram barreiras para acessar espaços de decisão. Esse desafio é ainda mais agudo para mulheres negras, trans e indígenas, que lutam por reconhecer seus direitos fundamentais.

Com a recente implementação de leis que promovem a inclusão e a proteção das mulheres, é essencial que o foco das candidaturas femininas se amplie. A verdadeira representatividade demanda a construção de uma política que acolha a diversidade das experiências femininas, promovendo uma agenda que beneficie todas as mulheres, e não apenas aquelas que se encaixam em normas tradicionais.

Em resumo, a luta pelo voto feminino e a representação política são campos de disputa que exigem atenção contínua e um compromisso renovado com a igualdade e a justiça social.



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