Sonhos e Desafios da Gentrificação Rural na Caatinga
Desde a infância, a Caatinga é o espaço que habita meus sonhos. Foi ali que cresci, e onde as raízes de meus antepassados se entrelaçam. Há cerca de sete anos, soube de um terreno à venda em Buíque, Pernambuco, e a curiosidade me levou a visitá-lo – a conexão com Graciliano Ramos, meu ídolo, alimentou ainda mais o desejo. Entretanto, algo maior, um desconforto inexplicável, me impediu de concretizar a compra.
Esse incômodo, que inicialmente não consegui decifrar, só foi revelado com o tempo e as viagens pelo sertão. Nesses percursos, testemunhei a ascensão da gentrificação rural: do Maranhão à Bahia, é uma realidade palpável. Durante minha visita ao terreno, percebi que muitos recifenses, incluindo eu, sonhavam em adquirir terras naquela região, muitas vezes sem compreender a complexidade do contexto – incluindo a certa vulnerabilidade dos territórios quilombolas.
É preciso lembrar que, apesar da presença crescente de novos moradores atraídos por nosso estilo de vida e por uma busca por autenticidade, a solução para a crise fundiária no Brasil vai além de um pequeno grupo de hipsters. As raízes da falta de acesso à terra se encontram no latifúndio, na herança desigual, e na voracidade do agronegócio e de grandes empreendimentos turísticos.
Mas, ao abordar o problema, é essencial não perder a transparência sobre as questões que merecem discussão. O geógrafo Martin Philips, em um estudo seminal de 1993, descreveu a gentrificação como uma colonização intraclasse, onde trabalhadores do campo são substituídos por indivíduos de classes mais abastadas. No contexto rural, essa dinâmica pode expulsar agricultores tradicionais em favor de turistas, aposentados e nômades digitais, gerando tensões que precisam ser enfrentadas.
Apesar de menos devastadora que a concentração de terras nas mãos de alguns poucos, a gentrificação rural impacta negativamente os povos originários e tradicionais. Iniciativas que revertem esse processo surgem em todo o Brasil. Um exemplo é a luta do Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, na Ilha do Ferro, Alagoas, que denuncia a apropriação indevida de saberes e territórios por empresários.
Em 2026, retornei a Buíque e refleti sobre o que poderia ter sido. Meu olhar se deteve sobre o terreno que poderia ter sido meu, ponderando as implicações de minha presença naquele espaço. Questões surgem: o que minha escolha afeta a vida de quem ali permanece? Qual a minha responsabilidade em um contexto de crescente violência no campo, que não me toca diretamente, pois não sou agricultora? E quais são os limites do turismo de base comunitária nesse cenário?
Ainda estou em busca de respostas. Quando visitar o Vale do Catimbau, que seja com respeito e a consciência da necessidade de preservar os territórios, deixando-os para quem realmente pertence a eles.
