13/05/2026 – 20:00
Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
Boulos: oportunidade histórica para reconsiderar a jornada de trabalho e conceder mais tempo ao trabalhador
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, destacou a importância da implementação imediata do fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, assim que as propostas forem aprovadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Durante audiência pública na comissão especial responsável pela análise do assunto, Boulos sugeriu que o texto final das propostas, a PEC 221/19 e a PEC 8/25, exclua qualquer transição que possa atrasar a implementação das novas regras.
“Se eu fosse o relator, incluiria a redação ‘sem qualquer transição’ ou, no máximo, uma transição de 30 ou 60 dias, que é comum em novas legislações, para permitir que as empresas ajustem suas escalas de trabalho. É importante ressaltar que esse debate já está em andamento há mais de um ano e meio”, defendeu.
A deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS) expressou preocupação quanto a tentativas de flexibilizar aspectos essenciais das propostas. “Estamos com um receio significativo em relação a manobras parlamentares que buscam introduzir emendas ou obstáculos à tramitação do fim da escala 6×1, com propostas como a ‘Bolsa Patrão’, que visam compensações indevidas”, alertou.
Vinicius Loures / Câmara dos Deputados
Melchionna: preocupação com a possível implementação da “Bolsa Patrão”
Em resposta às críticas de empresários, Boulos citou pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Sebrae para refutar a ideia de que a produtividade do país seria afetada. O ministro também mencionou o exemplo da Islândia, que adota a jornada 4×3, argumentando que o Brasil está diante de uma oportunidade única para adequar a jornada de trabalho, permitindo que os trabalhadores tenham mais tempo livre, inclusive para formação profissional.
“Estamos vivendo um momento histórico. Faz quase 40 anos que o Brasil não revisa a jornada de trabalho, desde a Constituição de 1988. Naquela época, a internet ainda não existia. Hoje, com o avanço da inteligência artificial e das tecnologias, a produtividade aumentou, mas isso não se traduziu em mais tempo para os trabalhadores”, observou.
Rick Azevedo, vereador e fundador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), lidera uma mobilização social em prol do fim da escala 6×1 e pela redução da jornada sem diminuição salarial. Ele reclamou da falta de avanços na questão. “Trabalhei 12 anos sob o regime 6×1. Minha carteira está repleta de experiências: de supermercado a farmácias, postos de gasolina e call centers. Como pode um pai ou uma mãe de família sobreviver nesse modelo? Eu mesmo não consegui entrar numa faculdade por estar preso a essa carga horária extenuante”, relatou.
Renato Araújo / Câmara dos Deputados
Rodrigo da Zaeli afirmou que estudos apresentados carecem de dados técnicos
Estudos
Na audiência, também estiveram presentes representantes do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait), que apresentaram pesquisas sobre a relação entre jornadas excessivas e problemas de saúde, óbitos e pressão sobre a Previdência Social. Um dos estudos mostrou que, enquanto a produtividade e os lucros empresariais aumentam, a renda permanece concentrada, mantendo milhões de trabalhadores submetidos a jornadas longas e precarizadas.
No entanto, o deputado Rodrigo da Zaeli (PL-MT) criticou os dados apresentados. “Estamos bastante preocupados com a carência de dados técnicos sobre as consequências dessa mudança. Hoje, verificamos três apresentações que não trouxeram a robustez necessária para um debate técnico”, afirmou Zaeli.
A próxima audiência da comissão, agendada para segunda-feira (18), deverá abordar as perspectivas dos empregadores a respeito das alterações na jornada de trabalho.
Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Ana Chalub
