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Pesquisa Revela Efeito Neuroprotetor do Açaí em Cérebros de Adolescentes

Pesquisa Revela Efeito Neuroprotetor do Açaí em Cérebros de Adolescentes

13 de maio de 2026

Autores:

Cristiane do Socorro Ferraz Maia, Professora Titular do Instituto de Ciências da Saúde, Faculdade de Farmácia, Universidade Federal do Pará (UFPA)


O Poder do Açaí: Uma Fruta Amazônica em Foco

A Euterpe oleracea, mais conhecida como açaí, é uma fruta típica da Amazônia que se destaca pelas suas propriedades nutricionais e benefícios à saúde. Amplamente consumido pelas comunidades ribeirinhas do Pará, o açaí possui um elevado teor de compostos bioativos, ganhando, assim, reconhecimento tanto a nível nacional quanto internacional como um alimento funcional e nutracêutico.

Estudos científicos corroboram as aplicações tradicionais atribuídas ao açaí: esta fruta apresenta eficácia anti-inflamatória, antioxidante, anticancerígena, cardioprotetora e neuroprotetora. Essas propriedades estão principalmente ligadas aos compostos fenólicos que contém, em especial as antocianinas, que conferem à fruta sua cor roxa vibrante.

Nas comunidades ribeirinhas, o açaí é consumido desde a infância e é associado à sensação de relaxamento. Este efeito, por sua vez, despertou interesse de pesquisadores que investigaram como a fruta pode atuar como um importante aliado no combate à ansiedade e à depressão, especialmente entre adolescentes.


Da Bélgica ao Pará

O professor Hervé Rogez, um cientista belga com mais de três décadas de vivência no Pará, lidera o Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), na Universidade Federal do Pará (UFPA). Fascinado pelas propriedades do açaí, Rogez e sua equipe têm se dedicado a investigar se a sensação de bem-estar associada ao consumo da fruta está ligada aos seus compostos fenólicos.

Rogez desenvolveu um suco de açaí clarificado, produto obtido através de um processo de centrifugação e microfiltração, que retira fibras e lipídios, permitindo que quaisquer resultados de pesquisas sejam atribuídos exclusivamente aos compostos fenólicos. Este suco foi submetido a uma série de estudos conduzidos pela doutoranda Taiana Simas e por mim, com foco nas propriedades neuroprotetoras da fruta.

A Pesquisa

A adolescência é um período crítico de desenvolvimento cerebral e de construção de novas conexões neurais. Esse momento, porém, é também marcado por um aumento da vulnerabilidade a fatores estressores e ao uso de substâncias. Com isso em mente, nosso objetivo era investigar como o suco de açaí clarificado poderia influenciar a saúde mental de adolescentes.

Os experimentos iniciais foram realizados com ratos, cujo desenvolvimento corresponde ao período humano da adolescência. Estudos anteriores indicam que, nas comunidades próximas a Belém, o consumo diário de açaí é em média de 500 ml. Para simular essa ingestão, estabelecemos a dose de 5,85 ml de suco clarificado por animal.

Após 10 dias de consumo do suco, os animais foram submetidos a testes comportamentais que avaliaram comportamentos relacionados à ansiedade e depressão. Utilizamos uma série de métodos clássicos para este tipo de avaliação, incluindo testes de campo aberto, labirinto em cruz elevado, labirinto em Y e nado forçado.

Resultados Promissores

Os resultados das avaliações mostraram que o consumo do suco de açaí não alterou negativamente a locomoção dos ratos, mas induziu um comportamento ansiolítico e uma redução significativa na imobilidade, um indicativo de comportamento depressivo. O açaí clarificado demonstrou, assim, potencial para promover sensação de bem-estar e redução de stress.

Além disso, a suplementação revelou reduzir o estresse oxidativo nas células do córtex pré-frontal, onde a glutationa peroxidase aumentou, indicando uma proteção celular bastante significativa. Na amígdala, outra região crítica para a regulação emocional, o açaí também levou a uma diminuição do dano oxidativo.

O estudo conclui que, devido ao seu alto teor de antocianinas, a suplementação com açaí clarificado não apenas promove efeitos ansiolíticos e antidepressivos, mas também oferece uma proteção neurológica, especialmente em adolescentes em fase de desenvolvimento.

É importante ressaltar que, apesar dos resultados promissores, a pesquisa ainda está em estágio inicial, e mais investigações são necessárias para elucidar completamente os mecanismos subjacentes aos efeitos observados. Contudo, esses resultados reforçam a relevância científica dos benefícios do açaí, há muito reivindicados pelas populações ribeirinhas.


Este artigo é uma colaboração entre o The Conversation Brasil e o Amazônia Vox.



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