Recentemente, defendi meu doutorado que aborda a homossexualidade em meio ao fundamentalismo religioso. Este estudo foi realizado dentro do programa de pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio. É preciso ressaltar que essa tese não é apenas o resultado de quatro anos de pesquisa, mas sim o desfecho de um longo e complexo percurso pessoal. Desde a minha infância, estive profundamente imerso em uma igreja batista, onde minhas amizades e memórias mais vivas foram forjadas em um ambiente eclesiástico que cultivava rígidos conceitos sobre sexualidade. Reflexões sobre o tema eram simplesmente inviáveis.
Aos dezoito anos, tomei a decisão de estudar Teologia, com a intenção de tornar-me pastor, motivado pelo amor que sentia pela igreja. Durante o seminário, entretanto, tive contato com ideias mais liberais.
Esse novo acesso ao pensamento crítico me afastou gradualmente do fundamentalismo, embora tenha sido um processo lento e ainda permeado de incertezas. Afastei-me da postura arrogante de sentir que possuía toda a verdade, do dogma da inerrância bíblica e da incapacidade de acolher a diversidade. Contudo, as marcas desse passado ainda permanecem.
Vivi sob a constante angústia de me sentir ameaçado em ambientes não cristãos, especialmente ao discutir questões teológicas e, mais acentuadamente, sobre sexualidade. Essa sensação era reflexo de uma mentalidade profundamente enraizada: a crença de que a Bíblia era a expressão indiscutível da verdade divina sobre questões éticas e sobrenaturais.
Durante minha formação em Psicologia, vivi a alegria de explorar reflexões mais abertas, contrastando com a angustiante percepção de que não conseguia fundamentar minhas convicções religiosas em relação à sexualidade.
Na minha prática clínica e nas sessões de escuta pastoral, deparei-me com intensos relatos de sofrimento associados à homossexualidade. A única resposta religiosa aceitável que consegui oferecer, distante da condenação, foi o acolhimento e um doloroso silêncio.
A pesquisa
Diante dessa trajetória de questionamentos e busca por respostas, decidi investigar o sofrimento na vivência da homossexualidade em contextos evangélicos fundamentalistas. Uma característica marcante da fé evangélica fundamentalista é a forma singular como se interpreta a Bíblia, muitas vezes de maneira literal e anti-histórica.
Para atingir meus objetivos, optei por uma abordagem qualitativa, explorando a relação entre pais evangélicos e seus filhos homossexuais. Utilize a análise de conteúdo, metodologia proposta por Laurence Bardin, para interpretar os dados coletados. As entrevistas revelaram diversas categorias de respostas.
Entrevistando dois pais e dez mães evangélicas que inicialmente percebiam a homossexualidade de seus filhos sob uma ótica fundamentalista, busquei entender seus sentimentos e reações.
A culpa (quase) inescapável
Um sentimento comum entre esses pais era a crença de que poderiam moldar as compreensões e práticas de suas crianças, considerando-as extensões de si mesmos. Como apontam os autores Andrea Ferrari, Cesar Augusto Picinini e Rita Sobreira Lopes em um artigo relacionado, a percepção de fracassos e erros dos filhos muitas vezes recaía sobre a educação que receberam. Nesse cenário, a homossexualidade era interpretada como um fracasso, gerando uma culpa intensa entre os pais. Somente dois participantes conseguiram superar esse sentimento, transformando sua visão sobre a homossexualidade em uma possibilidade legítima para um cristão.
No entanto, muitos recorreram ao mecanismo de defesa do desmentido, uma cisão inconsciente que permite enfrentar a contradição entre a crença e a realidade vivida, como explicam Lucas Neckel e Maria Luíza Magro.
Impactos no vínculo com o(a) filho(a)
Os projetos e expectativas que os pais criam em relação aos filhos, como elucidam Luciana Azevedo, Terezinha Ferez-Carneiro e Samuel Lins, muitas vezes se tornam um fardo quando a homossexualidade é revelada, gerando um luto simbólico parental. Luise Monteiro e Luciana Pessôa abordam como esse processo pode aprofundar fissuras nas relações familiares.
Todos os entrevistados observaram uma fragilização no vínculo saudável com seus filhos. Aqueles que viam a homossexualidade como uma afronta a si mesmos, sentindo-se injustamente atacados, lutaram para readquirir a proximidade com os filhos. Em contraste, os que mudaram sua perspectiva sobre a homossexualidade conseguiram reconstruir esse vínculo com mais sucesso.
Desencontros familiares
Os estigmas sociais em torno da homossexualidade são frequentemente transmitidos entre gerações nas famílias, e a revelação da orientação sexual de um filho pode gerar conflitos com familiares, especialmente em contextos de fé evangélica fundamentalista, onde discursos condenatórios são comuns.
Os pais entrevistados relataram tensões nas atitudes deles em casa em oposição à postura de seus familiares. O silêncio muitas vezes servia como um meio de contornar conflitos, mas quando esse silêncio era rompido, as relações tornavam-se mais tensas e, em alguns casos, insustentáveis.
Desencontros na igreja
A condenação generalizada da homossexualidade entre evangélicos baseia-se supostamente em uma leitura bíblica. No entanto, entre os 31.100 versículos da Bíblia protestante, apenas seis abordam a homossexualidade. Esse silêncio é constantemente preenchido por discursos de condenação.
Esse gap na base bíblica para condenação sugere uma fragilidade nas defesas ideológicas e talvez uma explicação para a necessidade de constantes mensagens de desaprovação. Entre os participantes, uma mãe conseguiu manter seu vínculo com a igreja, mas apenas isolando-se da filha. Para aqueles que desejavam manter laços afetivos com os filhos, foi necessário mudar suas percepções sobre a homossexualidade e buscar igrejas que fossem mais acolhedoras.
Aqueles que permaneceram firmes em suas crenças de que a homossexualidade era pecaminosa muitas vezes recorreram ao silenciamento para manter suas relações familiares e com a igreja, evitando confrontos necessários.
Este estudo revela que a intersecção entre a onipotência parental e a noção de homossexualidade como pecado cria uma espiral de culpa difícil de escapar. Infelizmente, um ponto em comum entre todos os entrevistados foi a constatação de uma dor intensa, manifestada de diversas formas nos relatos.
Espero que esta pesquisa contribua para reflexões e diálogos mais abertos entre famílias evangélicas e outras tradições religiosas.
A pesquisa que embasou este artigo contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
