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Estudo aponta que quase 20% dos universitários enfrentam pensamentos suicidas

Estudo aponta que quase 20% dos universitários enfrentam pensamentos suicidas

30 de abril de 2026

Autores:

Orlando Fernandes Junior, Pesquisador de pós-doutorado no Instituto Biomédico, Universidade Federal Fluminense (UFF)


A realidade das universidades brasileiras está se tornando alarmante: a presença de estudantes deprimidos, antes considerada uma exceção, transformou-se em um cenário cotidiano. O aumento de suicídios entre universitários nos últimos anos é um sinal de alerta que exige uma resposta imediata das instituições e dos pesquisadores.

A literatura científica já elucida a forte correlação entre depressão e ideação suicida. Contudo, essa relação não é absoluta. Estudos revelam que a ideação suicida — caracterizada por pensamentos sobre a morte ou autolesão — pode surgir mesmo na ausência de sintomas depressivos significativos. Essa revelação, à primeira vista contraditória, destaca que múltiplos fatores além da depressão influenciam essa complexa realidade.

Em resposta a essa necessidade de investigação, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) uniram esforços para explorar os fatores associados à ideação suicida na comunidade acadêmica brasileira. Os resultados desses estudos foram recentemente publicados no renomado periódico The Lancet Regional Health – Americas, oferecendo uma análise abrangente do tema.

Muito além da depressão

O foco do estudo foi investigar fatores psicossociais que potencialmente influenciam a ideação suicida, deixando de lado a visão tradicional que contextualiza a depressão como a única responsável. A pesquisa analisou diversas dimensões da vivência humana, entre elas a solidão, o otimismo, traumas da infância e características demográficas.

Essa abordagem integrada permite uma compreensão mais rica da ideação suicida, que deve ser vista como o resultado de uma série de influências interligadas ao longo da vida. Com isso, acreditamos que nosso trabalho não apenas acrescenta ao conhecimento científico, mas também oferece uma base para desenvolver estratégias eficazes de prevenção e identificação precoce.

Retrato da comunidade acadêmica

A pesquisa englobou 3.828 pessoas, recrutadas através de e-mails, WhatsApp e redes sociais.

Entre os participantes, 67,63% eram mulheres e 66,74% se identificaram como brancos, predominando jovens adultos entre 18 e 39 anos. As informações demográficas foram coletadas por autorrelato, seguindo categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É importante destacar que a categoria “negros” inclui tanto pessoas pretas quanto pardas.

Ademais, os participantes foram questionados sobre diagnósticos prévios de transtornos mentais, incluindo depressão, ansiedade e transtorno bipolar, contribuindo para um panorama mais abrangente da saúde mental da amostra.

Este estudo faz parte do projeto PSIcovidA, uma pesquisa longitudinal focada na saúde mental da comunidade acadêmica brasileira. Ao final da participação, todos os voluntários foram encaminhados para informações sobre apoio psicológico.

Como medir o invisível: tecnologia e saúde mental

Para a análise dos dados, utilizamos ferramentas de aprendizado de máquina, projetadas para identificar padrões complexos em extensos volumes de informação. O modelo de Multiple Kernel Learning _(MKL), já utilizado em estudos anteriores, foi escolhido pela sua habilidade em integrar diferentes dados com alta precisão e permitir interpretações mais ricas.

Essa abordagem possibilita a integração de variáveis que vão desde sintomas psicológicos até características demográficas, criando um modelo preditivo coeso. No estudo, consideramos medidas de depressão, solidão, otimismo e experiências adversas na infância.

A ideação suicida foi avaliada através de uma pergunta direta sobre pensamentos de morte ou autolesão nas duas semanas anteriores. Qualquer resposta que não fosse “nenhuma vez” indicava um potencial risco, conforme protocolos frequentemente utilizados no campo científico.

Números preocupantes

Os resultados indicaram que 18,86% dos participantes relataram ideação suicida, o que equivale a quase um em cada cinco indivíduos da amostra. Esse dado expressivo ressalta a urgência de uma atenção redobrada à saúde mental nas universidades.

A análise revelou que é possível distinguir, com precisão, indivíduos com e sem ideação suicida. Os sintomas depressivos, como esperado, foram identificados como os principais preditores; no entanto, não contaram toda a história.

Fatores como otimismo, sentimentos de solidão e experiências de maus-tratos emocionais também tiveram um impacto significativo na análise, explicado por cerca de metade das variáveis do fenômeno.

Dor e esperança: o equilíbrio entre risco e proteção

Um achado marcante foi o papel do otimismo. Diferente dos fatores de risco, o otimismo se destacou negativamente no modelo — quanto mais otimistas, menor a probabilidade de ideação suicida.

Esse resultado sugere que o otimismo pode ser um fator de proteção essencial. Aqueles que veem o futuro de maneira positiva tendem a estar mais resguardados contra pensamentos suicidas, mesmo em situações adversas.

Essas conclusões dialogam com a teoria dos três passos do suicídio, que propõe que a ideação suicida surge da interação entre dor psicológica e falta de esperança. Nesse contexto, experiências de solidão e maus-tratos na infância contribuem para essa dor, enquanto o otimismo age como um amortecedor contra a desesperança.

Marcas da infância que atravessam o tempo

Outro ponto crucial foi o impacto dos maus-tratos emocionais na infância. Vivências de abuso e negligência emocional corresponderam a cerca de 22% do peso total no modelo, um número alarmante.

Essas descobertas reforçam evidências já estabelecidas: experiências adversas durante a infância podem deixar marcas duradouras na saúde mental. Em nosso estudo, sentimentos como “ser uma criança indesejada” ou “ter sofrido abuso emocional” estiveram fortemente correlacionados à ideação suicida.

Mesmo levando em conta os sintomas depressivos, essas experiências continuam a influenciar a saúde mental, revelando como o passado emocional pode moldar a forma como lidamos com sofrimentos no presente.

Solidão: o risco silencioso

A solidão também emergiu como um fator significativo, embora com um peso moderado. A falta de companhia, mais do que o isolamento físico, foi um dos principais indicadores.

Estudos anteriores já evidenciaram que a solidão se relaciona à ideação suicida em diversas populações, inclusive entre estudantes brasileiros. Esse sentimento pode intensificar o sofrimento emocional, aumentando a sensação de desconexão e, consequentemente, a vulnerabilidade do indivíduo.

Além disso, a solidão desperta o desejo de pertencimento — um paradoxo que ressalta a importância de estratégias que promovam vínculos sociais e reduzam a percepção de ser um fardo para os outros.

O que fazer com esses achados?

Os resultados desta pesquisa deixam claro que focar apenas na depressão é insuficiente ao avaliar o risco de ideação suicida. É necessário adotar uma abordagem que considere múltiplos fatores emocionais, sociais e biográficos.

Isso tem implicações diretas para as políticas de saúde mental nas universidades. Protocolos de rastreamento mais abrangentes, intervenções que promovam otimismo e pertencimento, assim como ações de apoio psicológico, podem ser determinantes.

Entretanto, é importante reconhecer as limitações do estudo. O delineamento transversal impede a determinação de relações causais e a amostra é limitada ao contexto acadêmico, o que pode restringir a generalização dos dados, especialmente em tempos de pandemia.

A maioria das pesquisas ainda se concentra em nações de alta renda, e os resultados podem variar em diferentes contextos culturais. Portanto, estudar a realidade brasileira é um passo crucial para compreender esses fenômenos.

Por fim, o que nosso estudo revela é uma verdade complexa e profundamente humana: o sofrimento psíquico não é causado por uma única razão e, consequentemente, não possui uma solução única.

Entender a ideação suicida implica em ouvir histórias, reconhecer vulnerabilidades e, acima de tudo, identificar caminhos de proteção. Entre eles, talvez o mais poderoso seja o que este estudo evidenciou: a capacidade de acreditar que coisas boas podem acontecer.


Participaram da elaboração deste estudo as pesquisadoras Priscila Maria de Oliveira da Fonseca (Uerj), Débora Christina Muchaluat Saade (UFF), Isabel de Paula Antunes David (UFF), Eliane Volchan (UFRJ) e Fátima Erthal (UFRJ).

Este estudo recebeu apoio financeiro da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).



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