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Música como Terapia: Pesquisadores Lançam Curso de Desenvolvimento Emocional para Médicos Visando Combater o Estresse

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Música como Terapia: Pesquisadores Lançam Curso de Desenvolvimento Emocional para Médicos Visando Combater o Estresse

28 de abril de 2026

Autores:

Marcelo Bueno da Silva Rivas, Professor Adjunto de Medicina, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)


A formação médica é uma trajetória repleta de desafios e intensas emoções. Ao longo desse caminho, os alunos enfrentam a complexidade emocional que emerge das experiências de adoecimento e cura vividas por seus pacientes.

Esse processo acontece paralelamente ao desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes, que buscam formas de se adaptar a essa realidade emocional multifacetada.

Estudos indicam que cerca de 25% a 30% dos estudantes de medicina manifestam sintomas de depressão, enquanto mais de 50% dos médicos enfrentam burnout. Essas estatísticas, oriundas de metanálises robustas, revelam um padrão preocupante de sofrimento psíquico ao longo da formação médica, com repercussões diretas no desempenho acadêmico, na formação da identidade profissional e na futura prática clínica.

Embora o currículo inclua disciplinas como ética e psicologia, a preparação formal para que os futuros médicos reconheçam e gerenciem suas próprias emoções é insuficiente.

Em contrapartida, existe um “currículo oculto” — um conjunto de normas e valores transmitidos informalmente nas instituições, muitas vezes opostos aos princípios do currículo oficial.

Esse currículo sugere que um bom médico deve ser desapegado e distante, desincentivando a expressão emocional, como demonstrado pelo comportamento de professores que frequentemente desestimulam a manifestação de sentimentos.

Como resultado, o aluno que ingressou no curso com a genuína intenção de cuidar acaba, aos poucos, se desconectando de suas emoções.

O papel das emoções na medicina

Integrando um grupo que discorda dessa perspectiva, defendemos que as emoções são fundamentais para a qualificação do médico. A prática médica é intrinsicamente emocional, e oprimir essas emoções não as extingue, apenas as torna silenciosas e à margem de qualquer compreensão.

Portanto, o questionamento essencial não é se a medicina deve envolver as emoções, mas como fomentar o desenvolvimento emocional dos médicos em formação.

Vários autores já evidenciaram que o crescimento emocional dos estudantes pode aprimorar a tomada de decisões clínicas e beneficiar tanto médicos quanto pacientes. Contudo, ainda carecemos de um referencial teórico definitivo sobre como acompanhar essa evolução.

Pesquisas recentes sugerem que atividades pedagógicas, especialmente aquelas baseadas na arte, como a música, podem ser efetivas para promover o desenvolvimento emocional.

A música é amplamente reconhecida como uma ferramenta educacional poderosa. Sua escuta ativa estimula a plasticidade cerebral, mobilizando circuitos neuronais que ampliam a cognição e aprimoram a percepção emocional.

A interação entre emoção e cognição favorece um processo reflexivo mais aprofundado e potencializa a capacidade de lidar com a ambiguidade, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico. Este enriquecimento cognitivo torna a experiência educacional mais dinâmica e significativa.

O curso “Emoções em Medicina”

Neste contexto, um grupo de pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), da Unicamp e da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), em parceria com a Universidade de Groningen na Holanda, lançou o curso “Emoções em Medicina”.

A proposta era simples, porém inovadora: utilizar atividades pedagógicas baseadas na música para facilitar o reconhecimento, a expressão e a regulação das emoções.

Durante quatro semanas, 124 alunos participaram de encontros onde ouviram e analisaram canções de artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Criolo, Coldplay e Pink Floyd.

Por meio da reflexão sobre letras, ritmos e melodias, foram incentivados a identificar as emoções evocadas pelas músicas, além de traçar paralelos com experiências clínicas vividas.

O ambiente de aprendizado foi projetado para assegurar segurança psicológica e permitir a troca de experiências pessoais e profissionais sem julgamentos.

Os participantes também praticaram estratégias de regulação emocional, habilidades essenciais para reconhecer, compreender e gerenciar emoções em situações de estresse.

Para avaliar o impacto desta abordagem, realizamos um estudo multicêntrico prospectivo, aplicando uma metodologia quantitativa que permitiu comparar os níveis de inteligência emocional dos alunos antes e depois da atividade.

Subsequentemente, realizamos uma análise temática reflexiva e indutiva utilizando uma metodologia qualitativa para investigar como a proposta baseada em regulação emocional e música influenciou o desenvolvimento emocional dos estudantes.

Reconectando-se ao propósito de cuidar

Ao término da pesquisa, observou-se uma melhora significativa nos índices de inteligência emocional entre os participantes.

Durante as entrevistas qualitativas, os estudantes relataram que a experiência promoveu conexões interpessoais, normalizou a presença de emoções na prática médica e, para muitos, representou um reencontro com o propósito original de cuidar.

Este esforço para incentivar a percepção, expressão e regulação das emoções se opôs à repressão emocional estipulada pelo currículo oculto.

A música já é utilizada em hospitais como uma forma de terapia para pacientes, e talvez seja hora de reconhecer que os médicos também necessitam de ferramentas para compreender e processar suas próprias emoções.

Não se trata de substituir a competência técnica ou a racionalidade clínica, mas de ampliar a formação, integrando habilidades emocionais que fundamentam decisões complexas, comunicação eficaz e um cuidado mais empático.

Através de um espaço que permite aos estudantes explorar, ressignificar e acolher suas emoções por meio da música e da regulação emocional, apresentamos um caminho inovador que busca unir razão e emoção.

Diante do aumento do sofrimento psíquico entre os futuros profissionais de saúde, investir no desenvolvimento emocional pode ser uma estratégia vital para a sustentabilidade profissional. Formar médicos com habilidades técnicas sólidas é crucial, mas capacitá-los para lidar com as emoções que são parte intrínseca do cuidado pode ser determinante para a qualidade da assistência e a saúde de quem cuida.

Este artigo foi apoiado financeiramente pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).



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