Ir para o conteúdo

Escolha por Usinas a Gás Escancara Contradição do Brasil em Relação às Metas Climáticas

Escolha por Usinas a Gás Escancara Contradição do Brasil em Relação às Metas Climáticas

21 de abril de 2026

Autores:

Hirdan Katarina de Medeiros Costa, Professora visitante do Programa de Energia do Instituto de Energia e Meio Ambiente, Universidade de São Paulo (USP)


Os resultados do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), realizado em março, vão além de uma mera decisão técnica: revelam uma escolha política e estrutural que contraria o discurso oficial de transição energética do Brasil.

No contexto de uma urgente crise climática mundial, o país optou por ampliar sua matriz energética com combustíveis fósseis, solidificando uma dependência que, de acordo com a literatura científica, é incompatível com as metas de redução de emissões.

A magnitude do leilão impressiona. De 104 projetos contratados, 90 são usinas a gás natural, incluindo 60 empreendimentos novos. Para piorar, há também contratações de usinas movidas a carvão e óleo, evidenciando uma expansão concentrada em fontes fósseis, focando em ativos de longa duração.

Essa escolha torna-se ainda mais preocupante quando observamos a distribuição geográfica. As 60 novas usinas a gás estão majoritariamente localizadas no Nordeste e no Sudeste, com destaques para estados como Ceará (2.683 MW), Sergipe (1.565 MW), Rio de Janeiro (1.010 MW), Piauí (973 MW) e Espírito Santo (966 MW). Essa é uma realidade em regiões com grande potencial para geração de energia renovável, como eólica e solar. Portanto, a expansão de fontes fósseis nessas áreas reflete não a falta de alternativas, mas uma decisão consciente por um modelo energético mais intensivo em carbono.

Consequências alarmantes

Ao direcionar investimentos para novas termelétricas, o Brasil cria um efeito de lock-in tecnológico, consolidando uma infraestrutura que poderá operar por décadas. Esse fenômeno é frequentemente citado como um dos principais obstáculos à descarbonização do setor energético. Em termos práticos, isso implica comprometimento futuro com a transição, ao manter ativos que exigem continuidade operacional para garantir retorno econômico.

Os impactos dessa escolha não são meramente teóricos. Estima-se que os empreendimentos contratados possam emitir cerca de 14.985 toneladas de CO₂ por hora. Para colocar em perspectiva, isso equivale às emissões diárias de aproximadamente 4,6 milhões de carros. A gravidade desse número destaca o desalinhamento com as diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que enfatiza a urgência de uma redução substancial das emissões energéticas.

Além das questões climáticas, as implicações territoriais e sociais também são significativas. A concentração de empreendimentos em áreas específicas exacerba desigualdades históricas na distribuição de infraestrutura e investimentos. Enquanto isso, alternativas descentralizadas como a geração solar distribuída continuam subutilizadas, apesar de serem estratégicas para democratizar o acesso à energia e reduzir perdas no sistema.

Exemplos como o projeto de armazenamento subterrâneo de gás em Pilar (AL) ilustram outro problema: a adoção de tecnologias ainda não consolidadas no Brasil, que carregam riscos ambientais sérios e carecem de um debate público robusto. A falta de transparência e de participação popular nas decisões dessa magnitude minam a legitimidade do planejamento energético.

Portanto, o Leilão de 2026 não deve ser visto apenas como um mecanismo para garantir suprimento. Ele representa uma diretriz de longo prazo. Ao favorecer combustíveis fósseis em lugar de alternativas renováveis já competitivas, o Brasil se afasta das trajetórias necessárias para limitar o aquecimento global e enfrentar as vulnerabilidades socioambientais.

Se o planejamento energético molda o futuro, o que se vê é uma opção por um modelo que deveria já estar ultrapassado. A questão central é estratégica: até onde o país está disposto a alinhar seu desenvolvimento com as evidências científicas e os compromissos climáticos assumidos?



Link da Fonte

Compartilhe:

Compartilhe emfacebook
Compartilhe emtwitter
Compartilhe emlinkedin

Mais lidas