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Frente à Tragédia: Quais Valores Precisamos Reafirmar? – Jornal da USP

Frente à Tragédia: Quais Valores Precisamos Reafirmar? – Jornal da USP

17 de maio de 2025

Autores:

Redação


Título: A Morte de Bruna Oliveira: Um Chamado à Reflexão sobre Justiça e Violência de Gênero

No dia 13 de abril de 2025, a tragédia abalou São Paulo ao registrar o assassinato de Bruna Oliveira da Silva, uma estudante de 28 anos do mestrado da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Bruna retornava para casa, na zona leste da capital, quando sua vida foi brutalmente interrompida. O luto que se seguiu não só comoveu a comunidade universitária, mas também desencadeou uma onda de protestos, notas de pesar e mobilizações que clamam por justiça e segurança, especialmente dentro da EACH. Organizações como a Adusp, centros acadêmicos e coletivos feministas uniram esforços em um abaixo-assinado que coletou mais de três mil assinaturas para a titulação póstuma de Bruna.

Como professor da EACH, escrevo impulsionado pela dor e pela responsabilidade de refletir juntamente com a comunidade sobre o que pode significar justiça diante de uma violência tão devastadora, especialmente quando o Estado falha em suas funções básicas: proteger e garantir a segurança de suas cidadãs.

A morte de Bruna expõe uma dura realidade que muitos estudantes da escola conhecem bem: o abandono do Estado em relação às periferias urbanas. O crime ocorreu na Vila Carmosina, uma região marcada pela vulnerabilidade e pela constante sensação de insegurança, especialmente para as mulheres, que enfrentam diariamente o risco de violência.

Embora o feminicídio tenha sido classificado como um crime específico, sua investigação e prevenção ainda estão permeadas pela negligência. Os casos se acumulam, e a resposta lenta do sistema apenas aprofunda o sentimento de abandono. A indiferença institucional frente à violência de gênero revela uma falha sistêmica.

Nesse contexto, a revolta expressa por coletivos feministas e pela comunidade acadêmica é tanto compreensível quanto necessária. A dor pela perda de Bruna ressoa com o medo cotidiano de inúmeras mulheres, denunciam uma estrutura que falha em protegê-las e sublinha a urgência em exigir mudanças. Os protestos e a comoção coletiva são manifestações legítimas, mas é crucial que, nesse ambiente de luto e indignação, possamos redefinir o que entendemos por justiça.

Quando o poder público se ausenta, surgem outros mediadores de conflitos que muitas vezes operam fora dos princípios do Estado de Direito, impondo regras e sanções de forma arbitrária. Essa substituição informal de justiça institucional por mecanismos paraestatais não só deslegitima o processo legal como também gera um ciclo de violência e insegurança.

Diante do horror do crime, a ira pode se transformar em um desejo de vingança. Contudo, quando este desejo resulta em justiçamento, corremos o risco de legitimar formas de violência que minam as bases da justiça. A execução do suspeito por um tribunal paralelo não traz remédio à dor, tampouco transforma a realidade ou protege outras mulheres. Desloca o processo para um espaço menos transparente, tornando a justiça opaca e ainda mais inacessível.

Para a construção de uma justiça duradoura, precisamos de instituições que garantam julgamentos justos, mesmo sob a pressão das emoções. Quando a justiça é feita fora da legalidade em nome de uma urgência moral, uma inversão perigosa ocorre: a exceção transforma-se em norma, banalizando a suspensão do direito e transformando a violência em uma gestão estável.

Essa abordagem recai com mais gravidade sobre grupos historicamente marginalizados, como mulheres e pessoas negras, cujas vozes frequentemente são ignoradas. Em um cenário em que o direito se torna exceção, são eles que mais sofrem.

Refletir sobre justiça requer que questionemos que tipo de sociedade desejamos e que valores queremos afirmar diante de tragédias como a de Bruna. Justiça começa com responsabilização, com provas, julgamento e garantias legais, mas não deve se limitar a isso. É imprescindível que as instituições criem um ambiente seguro e acolhedor que evite a perda de vidas e valorize a dignidade.

Honrar a memória de Bruna é afirmar que nenhuma morte é aceitável e que nossa resposta não pode ser a vingança. Sua mãe, em meio à dor, expressou claramente esse compromisso: “Eu queria ver ele sendo julgado. Eu não queria ele morto”.


(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem as opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo.)



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