A Tragédia do Desenvolvimento: Reflexões em Torno de Goethe e o Presente
No ocaso de sua vida, Goethe se definia como um “matemático ético-estético”, em busca de fórmulas que tornassem o mundo mais compreensível e suportável. Em Fausto II, particularmente em seu quinto ato, ele apresenta uma complexa tese sobre a destruição da natureza, revelando uma crítica aguda ao progresso desenfreado.
Na cena inaugural da "Região aberta", somos apresentados a Filemon e Baucis, anciãos que representam a última porção de uma natureza intocada, cada vez mais ameaçada pelo avanço do império faustiano, simbolizado pela figura de Mefistófeles. Este, ao promover a morte dos protagonistas e a devastação de seu ambiente, justifica suas ações com a impiedosa lógica do desenvolvimento: “Que cerimônia, ora! E até quando?” A transposição de valores aqui é clara: o progresso não admite limites, seja em relação à natureza ou à vida humana.
A tragédia de Filemon e Baucis pode ser vista como uma prefiguração dos horrores do século 20, como apontou o poeta Paul Celan. Suas referências pontuais ao genocídio nazista ecoam os versos de Todesfuge, sugerindo que a destruição da natureza e das vidas humanas são facetas de uma mesma ideologia. As fórmulas de Goethe, embora não matemáticas no sentido estrito, possuem uma universalidade que reverbera até os dias atuais. O poeta anteviu que o desmatamento e a degradação ambiental se tornariam questões globais, como a devastação da Mata Atlântica no Brasil.
A obra de Goethe expõe, em poucas palavras, as contradições da ideologia do desenvolvimento. O colonizador, em seu último discurso, proclama a conquista de novos terrenos “para o bem dos povos”, mas não hesita em eliminar aqueles que habitam a terra há gerações. Essa fórmula, que justifica expurgos étnicos, ressoa com a realidade contemporânea e o dilema entre progresso e preservação ambiental.
Hoje, um exemplo gritante desse conflito ocorre no Instituto Butantan, onde a construção de biotérios e fábricas de vacinas levou ao insensato desmatamento de uma reserva de Mata Atlântica. A justificação, embasada na urgência da saúde pública, não deveria ser um passaporte para a destruição de ecossistemas. A preservação do meio ambiente deve caminhar ao lado da inovação científica.
A destruição de habitats naturais tem consequências drásticas para a vida selvagem e para os humanos que habitam as proximidades. A deterioração do ambiente sonoro e a saúde sofrida dos moradores são apenas algumas das consequências da devastação. O dilema da produção de vacinas versus a conservação da natureza revela-se uma falácia: é possível e necessário buscar soluções que respeitem ambos os aspectos.
A negligência das autoridades em relação às comunidades locais e à ecologia é um reflexo de uma abordagem autoritária e distante da realidade. Os “bonzos” contemporâneos, que se distanciam das necessidades dos cidadãos comuns, perpetuam no presente um ciclo de descaso que se oppose ao legado de Goethe.
Se no futuro a degradação ambiental levar a Fundação Butantan a diversificar seus negócios para a produção de máscaras respiratórias, o contraste com a visão de um mundo saudável será gritante. A obra de Goethe e seu alerta sobre o custo do progresso permanecem relevantes e demandam nossa atenção e ação.
Por fim, é imperativo que reflitamos, como fez Alfredo Bosi, sobre a luta contínua contra as forças que devastaram a casa de Filemon e Baucis, entendendo que essa batalha pela preservação da natureza é, em essência, uma luta pela dignidade humana. O campo de batalha e os protagonistas podem ter mudado, mas a essência da luta persiste, e devemos estar preparados para enfrentá-la.
