Por Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq
Lawrence Summers, ex-reitor de Harvard, insta a sociedade a resistir às ameaças que o governo Trump representa para a integridade desta prestigiada instituição de ensino. Enquanto isso, assistimos à autocensura crescente entre professores nas universidades da Hungria. Ao refletirmos sobre as tentativas de deslegitimar as universidades públicas no Brasil por parte de Bolsonaro, é pertinente questionar: até quando a avalanche cultural provocada pela extrema-direita se alastrará pelo nosso país?
Em um artigo recente, o professor Eugênio Bucci assinala que “o martírio da universidade brasileira começa lá” nos Estados Unidos. Ele argumenta que os eventos que moldarão o futuro da educação pública brasileira não estão ocorrendo aqui, mas na Casa Branca, em Washington — o epicentro de uma onda que atinge instituições como Columbia, Tufts e Yale. Ao contrário de Bucci, sou um pouco mais otimista. Acredito que chegou o momento de promover mudanças estruturais na USP, antes que essas ameaças externas se tornem palpáveis. Uma autocrítica genuína é imprescindível para implementar reformas transparentes que ressaltem a necessidade de uma universidade plural, onde a liberdade de pensamento seja a norma.
Se a debacle cultural nos alcançar, precisamos estar preparados, ao menos, com uma estrutura condizente com os tempos modernos. A cada dia, ignoramos as alterações culturais que têm se manifestado nas gerações mais jovens, afastando potenciais líderes da percepção de que formar-se na USP continua a ser relevante. Mantendo nosso modelo atual, será cada vez mais desafiador atrair estudantes que, após o ensino superior, aspiram a pós-graduações com qualidade e eficiência.
Retornando ao passado, no fim da década de 1960, alguns educadores propuseram uma renovação na estrutura de graduação, inspirando-se no modelo dos colleges norte-americanos. O conceito era que os alunos ingressassem na USP para um ciclo de formação geral de dois a quatro anos, antes de escolherem suas carreiras. Propostas semelhantes ressurgiram nas discussões do estatuto da USP no final da década de 1980, mas, na época, a resistência das faculdades profissionais e do corpo docente conservador impediu sua implementação.
Trinta anos se passaram desde que o último estatuto da USP foi promulgado em 1988, e a aceleração das mudanças tecnológicas, impulsionadas pela ciência nas universidades e institutos, transformou o cenário global. Para aqueles que despertassem hoje após décadas de sono, o mundo pareceria quase irreconhecível, como uma cena saída de uma tirinha dos Jetsons.
Apesar de avanços na diversidade étnica, de gênero e classe social nas universidades públicas de São Paulo, ainda é necessário que a USP reconheça as mudanças estruturais induzidas pelo progresso científico e tecnológico. Os estudantes de hoje têm hábitos de comunicação e atributos que os diferenciam das gerações passadas. Essa evolução não implica um juízo de valor negativo; as gerações sempre consideraram os jovens de seu tempo inferiores. A história nos mostrou que essa visão é equivocada.
Apresento, então, propostas para a reestruturação do ensino de graduação, alinhadas às transformações sociais e culturais atuais. A comunicação digital, marcada pelo uso excessivo de emojis e frases curtas, não deve ser confundida com uma narrativa reflexiva e articulada. A formação acadêmica deve transcender a mera preparação para vestibulares; precisa moldar cidadãos preparados para um mercado de trabalho dinâmico e desafiador.
É essencial debatermos o verdadeiro significado de ingressar em uma universidade pública. A identificação com a USP deve ser fomentada a partir da compreensão de sua complexidade. Propõe-se uma fase introdutória, onde todos os calouros aprendam sobre a instituição, antes de se especializarem. Nesse ciclo, disciplinas fundamentais como letramento acadêmico, cidadania, programação e idiomas seriam cruciais.
A disciplina de letramento acadêmico, por exemplo, poderia ensinar os alunos a interpretar e comunicar suas ideias de forma clara e estruturada. Além disso, seria vital discutir a diversidade e complexidade do Brasil, preparando os estudantes para a realidade de seu país. Em um mundo cada vez mais digital, habilidades de programação se tornaram imprescindíveis, permitindo que nossos alunos compreendam e se integrem nas inovações tecnológicas que moldarão o futuro.
Enfim, espero por um mundo onde a comunicação seja acessível a todos com um idioma compartilhado. Embora tentativas passadas, como o esperanto, não tenham prosperado, a realidade aponta para o inglês ou o mandarim como caminhos viáveis para um futuro onde nossos estudantes possam prosperar.
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