A Revolução da Penicilina: Um Legado das Trincheiras
A história que se segue remonta a um dos capítulos mais significativos da medicina contemporânea: a introdução da penicilina durante a Segunda Guerra Mundial. A Força Expedicionária Brasileira (FEB), criada em 9 de agosto de 1943 e vinculada às Forças Armadas do Brasil, enviou aproximadamente 25 mil homens para as linhas de combate na Europa. Encerrada em 1º de janeiro de 1945, a FEB tornou-se um símbolo de coragem e sacrifício, destacando-se entre seus integrantes o enfermeiro Diógenes Santiago, um dos sobreviventes daquela epopeia.
Natural de Franca, São Paulo, Diógenes nasceu em 7 de março de 1923 e faleceu em 12 de agosto de 2000, em Ribeirão Preto. Durante seu tempo na FEB, contribuiu significativamente no suporte ao Corpo Médico da tropa, atuando na retaguarda. Contudo, um evento traumático alterou seu destino: uma explosão danificou e comprometeu a audição de seu ouvido esquerdo, forçando seu retorno ao Brasil no início de 1945, portando cicatrizes físicas e emocionais, mas também memórias de inovações médicas cruciais.
Um aspecto interessante do relato de Diógenes diz respeito ao uso da penicilina no tratamento da blenorragia, uma infecção bacteriana provocada pela Neisseria gonorrhoeae. Ele descreveu como, em algumas manhãs, caminhões chegavam da linha de frente trazendo soldados infectados. Muitos apresentavam secreção purulenta uretral, sinal típico da doença. Assim que desembarcavam, eram dispostos em fila e recebiam uma dose única de penicilina — a quantidade exata não especificada, mas presumivelmente baixa, dada a ausência de cepas resistentes prevalentes naquela época.
O mais impressionante era que, poucas horas depois, esses soldados retornavam ao combate, completamente recuperados, sem qualquer sinal de corrimento. Esse testemunho direto da eficácia da penicilina destaca seu impacto transformador, solidificando sua importância como uma das descobertas mais significativas da medicina.
A penicilina — descoberta pelo médico escocês Sir Alexander Fleming em setembro de 1928 — revoluciona o tratamento de infecções bacterianas. Fleming, nascido em 6 de agosto de 1881, em Lochfield, na Escócia, faleceu em 11 de março de 1955, em Londres. Ele recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1945, em conjunto com Ernst B. Chain e Howard W. Florey, que aprimoraram os métodos de purificação e produção do antibiótico em larga escala. A influência de Fleming foi tão marcante que, na década de 1950, ele visitou o Brasil, sendo recebido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto a convite do diretor Zeferino Vaz.
Essa visita rendeu a Fleming o título de Cidadão Ribeirão-pretano, concedido pela Câmara Municipal por meio da Lei Nº 352/1954. Como uma formalidade não pôde ser realizada, o professor Octávio Baracchini, da então Faculdade de Odontologia e Farmácia, viajou até Londres para entregar o título à esposa de Fleming, em uma cerimônia realizada no Saint Mary Hospital. Importante ressaltar que Fleming já havia falecido. Para honrar sua contribuição, uma rua em Ribeirão Preto ganhou seu nome, perpetuando seu legado na história local.
A narrativa de Diógenes Santiago e seu depoimento sobre a utilização da penicilina nos conflitos bélicos lembram que a guerra vai além de manobras estratégicas; ela envolve vidas profundamente afetadas por avanços científicos. A penicilina não apenas trouxe os soldados de volta ao combate; ela revolucionou a medicina e provou que, mesmo nos momentos mais sombrios, a ciência pode se erguer como um farol de esperança.
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