Logística do Agronegócio: Desafios e Oportunidades no Brasil
O Brasil se destaca como um gigante na produção de grãos, alcançando recordes históricos. No entanto, esse êxito produtivo apresenta um paradoxo: à medida que a produção aumenta, as lacunas em nossa logística se tornam cada vez mais evidentes. A logística não se limita ao transporte; abrange também a armazenagem, a gestão de estoques e a eficiência operacional. Sem investimentos estruturais adequados, a competitividade do agronegócio brasileiro está seriamente ameaçada. O desbalanceamento na matriz de transporte é alarmante.
Dados recentes do Esalq-LOG mostram que, em 2023, 69% da soja foi transportada por caminhões, 22% por ferrovias e apenas 9% por hidrovias. Entre 2010 e 2023, a dependência do transporte rodoviário para o escoamento de grãos cresceu de 45% para 54%, enquanto a participação das ferrovias diminuiu de 47% para 33%. Essa tendência contraria as melhores práticas logísticas observadas em outras partes do mundo, ampliando a dependência do Brasil em relação ao transporte rodoviário em longas distâncias. É imprescindível que o país desenvolva sua infraestrutura ferroviária e hidroviária em um ritmo superior ao da produção agrícola e das exportações. Do contrário, dentro de uma década, o potencial do agronegócio poderá ser severamente limitado pela infraestrutura logística deficiente.
A situação da armazenagem não é mais promissora. O Brasil dispõe de capacidade para armazenar apenas entre 60% e 70% de sua produção de grãos, enquanto os Estados Unidos conseguem armazenar até 150%. A escassez de instalações adequadas força muitos produtores a comercializarem rapidamente seus produtos ou a utilizarem caminhões como "estoques sobre rodas", o que eleva os custos logísticos. Um estudo realizado pelo Esalq-LOG/CNA indicou que 61% dos agricultores não possuem armazéns próprios e muitos desconhecem as linhas de crédito disponíveis para a construção de instalações adequadas.
A construção de uma capacidade de armazenagem alinhada à produção nas principais regiões agrícolas é vital para evitar a sobrecarga do sistema de transporte durante períodos de alta demanda. Todavia, muitos especialistas alertam que não se deve planejar a infraestrutura apenas para os picos de demanda, o que acabaria gerando uma ociosidade significativa o restante do ano, inviabilizando a diluição dos custos fixos.
Apesar dos desafios, o Brasil enfrenta uma significativa demanda não atendida por infraestrutura, e as projeções positivas para o agronegócio tornam este momento oportuno para investimentos.
Quais soluções para a logística agropecuária?
Para enfrentar essas questões, é necessário um enfoque estrutural. Os investimentos em infraestrutura de transporte, historicamente em torno de 0,5% do PIB, precisam ser significativamente ampliados, priorizando ferrovias e hidrovias, que são mais eficientes para longas distâncias.
O sucesso do corredor do Arco Norte, que já representa 35% das exportações de grãos e farelos, em comparação a apenas 12% em 2010, é um exemplo claro do potencial transformador que projetos de investimento coordenado podem alcançar. Contudo, não se deve negligenciar os eixos rodoviários, especialmente as estradas vicinais que conectam as áreas produtoras aos principais eixos de escoamento.
A agilidade nos processos de aprovação e execução de projetos de infraestrutura é fundamental. Esperar 30 anos para a operação de novas ferrovias é insustentável, especialmente em um contexto de alta demanda.
É igualmente crucial implementar políticas que fomentem a armazenagem nas propriedades rurais. Isso inclui aumentar o acesso a crédito e promover a educação sobre as opções de financiamento disponíveis. O envolvimento de fundos de investimento com o setor de logística no agronegócio pode ajudar a sanar as lacunas estruturais atuais.
A eficiência do transporte deve ser aprimorada. É inaceitável que caminhões enfrentem filas superiores a 30 horas para carga e descarga. A adoção de sistemas de agendamento, a digitalização de processos e melhorias na infraestrutura de terminais são medidas essenciais para eliminar essas ineficiências.
Além disso, a redução do tempo ocioso dos equipamentos de transporte pode liberar mais capacidade para o sistema logístico. O Brasil não pode continuar a operar sob o modelo de "estoque sobre rodas."
Vivenciamos, por fim, um momento de transição energética global que exigirá uma renovação substancial da frota de caminhões brasileiros, que, notavelmente, apresenta uma idade média elevada. Essa é uma oportunidade valiosa para aumentar a eficiência do transporte.
Por último, não podemos menosprezar o fator humano. Os motoristas autônomos, responsáveis por cerca de 50% da frota brasileira de transporte, desempenham um papel crucial na cadeia logística e necessitam de melhores condições de trabalho para assegurar a sustentabilidade do setor no longo prazo. A escassez de motoristas, que já se manifesta em países da Europa e nos Estados Unidos, é um desafio emergente, agravado pela transição geracional.
A Universidade de São Paulo tem exercido um papel ativo na formação de profissionais e na realização de pesquisas sobre logística no agronegócio, em especial através do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-LOG) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz.
Para transformar a logística do agronegócio brasileiro de um gargalo em um diferencial competitivo, precisamos de uma estratégia abrangente e integrada, que considere investimentos em infraestrutura, marcos regulatórios que incentivem a participação do setor privado e garantam segurança jurídica, políticas de financiamento adequadas e uma gestão profissionalizada da cadeia logística. A cooperação entre universidades, governo e setor privado deve ser fomentada, mirando um futuro mais produtivo e eficiente para o Brasil.
Publicado originalmente na revista Globo Rural, em 2 de abril de 2025.
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