Recentemente, recebi o convite para fazer parte do Núcleo de Estudos de Filosofia da Energia (NEFE) da Universidade Federal de Uberlândia. O grupo, que analisa questões contemporâneas em energia, leu meu artigo intitulado Em busca de uma sociologia da energia, publicado nesta coluna. Nele, abordo o pouco explorado campo da sociologia da energia e como esse tema poderia ser mais bem dialogado com a filosofia.
Na ocasião da redação do artigo, meu intuito era compreender por que a sociologia, em relação aos empreendimentos energéticos, se tem limitado a registrar danos e fazer denúncias. Em um contexto de crescente desconfiança pública em relação à ciência e suas respostas às repercussões da transição energética, o debate sobre a continuidade do uso do petróleo versus a expansão das energias renováveis ganha contornos complexos. A presença da sociologia nesse campo é inegável, mas seu aprofundamento parece hesitante, muitas vezes restringindo-se à reinterpretação de problemas preexistentes.
A energia, como fundamental para a produção social, deveria ser central nas discussões sociológicas, mas, por razões que ainda estamos para entender, esse assunto continua distante das análises críticas das realidades sociais, econômicas e políticas. Ao debater com os filósofos da energia, fui desafiada a considerar momentos históricos de transições energéticas que trouxeram convulsões sociais e transformações produtivas. Estamos, de fato, vivendo uma transição significativa nesta área?
Quando ouço clamores por uma "transição energética justa", percebo a diluição desse conceito em um contexto social que já é intrinsecamente injusto. Essa reivindicação parece se esvaziar à medida que os impactos das energias renováveis se tornam mais evidentes e movimentos negacionistas proliferam em diversas nações.
Recentemente, presenciei um debate sobre os efeitos da instalação de painéis solares. Um membro da plateia declarou que havia "perdido as esperanças nas energias renováveis". Essa afirmação me impactou profundamente. Como alguém pode depositar tanta expectativa em uma fonte de energia específica? Essa reflexão me levou a crer que talvez essa pessoa esperasse uma transformação social radical, algo que as energias “limpas”, embora ainda longe de serem efetivamente limpas, não podem entregar sozinhas.
Historicamente, as transições energéticas renovaram as bases produtivas, mas raramente romperam com o sistema existente. Da lenha ao carvão, do carvão ao petróleo, e do petróleo à energia nuclear — cada uma dessas transições trouxe eficiência e escala, mas reforçou também a concentração de poder, capital e as desigualdades sociais.
Vale mencionar que, em 2020, 58% da energia consumida nos Estados-Membros da União Europeia era importada. A eliminação, anunciada em março de 2022, da dependência de combustíveis fósseis russos destacou a urgência dessa questão no contexto geopolítico atual, onde a transição energética se torna uma questão de sobrevivência produtiva.
Neste cenário, minha intenção não é esgotar o debate, mas sim provocar novas reflexões junto aos filósofos que estão debatendo essas questões. Historicamente, as transições renovaram o sistema, mas unicamente dentro de sua lógica, e isso é algo que devemos considerar na atualidade.
A expansão das energias renováveis e sua mercantilização muitas vezes obscurecem as injustiças sociais e políticas fundamentais. Considerando a rivalidade entre potências como os Estados Unidos e China, somos levados a questionar o futuro para o qual estamos caminhando. As tensões geopolíticas não só influenciam as transições energéticas, mas transformam tecnologias e recursos em verdadeiros campos de batalha.
Diante dessa complexidade, comecei a explorar a teoria das transições sociotécnicas, proposta por Frank Geels, que analisa como inovações podem desestabilizar regimes estabelecidos. No entanto, Geels não aborda suficientemente as forças sociais e econômicas que moldam essas transições. Nesse sentido, István Mészáros oferece uma perspectiva cética, enfatizando que as mudanças exigem uma transformação radical das lógicas sociais e econômicas vigentes.
Essa reflexão traz à tona a desilusão com as energias renováveis. Embora vistas como promessas de transformação, sem uma ruptura sistêmica, suas limitações se tornam evidentes.
Esse debate, portanto, é mais urgente do que nunca. À medida que enfrentamos um mundo em constante mudança, é essencial questionar não apenas o que está em jogo, mas também como estamos dispostos a transformar a sociedade em uma era de complexas transições energéticas.
