
Reforma de moradias impulsiona vendas de materiais de construção no RS
A urgência na reforma de moradias danificadas pelas chuvas e enchentes de maio impulsionou as vendas de materiais de construção no Rio Grande do Sul nos últimos meses, apesar da falta de dinheiro após um período intenso de despesas e a necessidade de cobrir outros gastos domésticos.
Segundo levantamento da Acomac (Associação dos Comerciantes de Materiais de Construção de Porto Alegre), as vendas do setor cresceram 19,18% na região metropolitana entre janeiro e setembro de 2024, em comparação com o mesmo período no ano passado.
Ainda contabilizando os danos na casa que mora com a mãe, a esteticista Helena Caliari, 34, conta que concentrou os primeiros gastos em materiais para refazer a rampa da garagem e o piso no pátio, que erodiram após ficarem 30 dias submersas pela enchente do rio dos Sinos.
“Afundou a borda de toda a piscina”, diz a moradora de Canoas, cidade vizinha a Porto Alegre. “A gente ia perder a piscina, que é uma coisa cara. Então pensamos que, entre consertar e deixar quebrar, o menos pior era consertar.”
Canoas registrou o maior número de pessoas atingidas pelas cheias: cerca de 180 mil moram em bairros que alagaram, mais da metade dos 347 mil habitantes. A água atingiu 2,37 metros no primeiro piso da casa, que fica a poucas quadras de um hospital que teve o térreo destruído, e demorou 30 dias para escoar totalmente.
“Precisamos trocar a porta da frente que inchou e nunca mais abriu, comprar uma porta nova para o lavabo, trocar o portão de casa, consertar os muros… tudo isso demanda tempo, dinheiro e muita paciência”, diz Helena.
O próximo passo será reformar a garagem e trocar os interruptores, mas outros gastos, como a compra de um novo ar-condicionado, podem alterar esses planos. A recolocação de azulejos e gesso nos tetos, assim como a nova pintura nas paredes, também terá que esperar. “Os tijolos dentro ainda estão molhados. Não faz sentido a gente consertar agora se vai ter que pintar mais adiante.”
Mais de 300 mil imóveis foram inundados em algum grau pelas enchentes históricas no estado.
Mauricio Simionato, diretor da Leroy Merlin na região Sul, diz que foi preciso uma ação rápida em logística e fornecedores para repor estoques em um cenário de estradas bloqueadas ou destruídas. “Nenhum comércio estava preparado para essa demanda”, diz. “O principal desafio é fazer essa cadeia de abastecimento atender na mesma velocidade.”
De acordo com Simionato, as obras de reconstrução começaram para valer no fim de maio, e ainda impulsionavam as vendas até o último levantamento em setembro. Neste período, foi registrado um aumento de 129% na procura por rodapés, seguido por portas (+93%), porcelanato externo (+35%), pisos internos (+34%) e porcelanato interno (+12%).
A alta incluiu itens de limpeza como baldes, mangueiras e lava-jatos —este último na liderança da procura entre todos produtos da loja, com aumento de 600%.
Nas primeiras semanas da tragédia, a rede vendeu mais de 160 produtos a preço de custo. O parcelamento também foi expandido de seis para dez vezes sem juros. A modalidade, ainda vigente e sem prazo para acabar, já representa 20% do total de operações em solo gaúcho desde então.
Impulsionado pelo auxílio de R$ 5.100 concedido pelo governo federal, o uso do Pix aumentou de 9% para 12%, enquanto os pagamentos no débito cresceram de 19% para 23%.
OS DESAFIOS PARA QUEM TRABALHA NO SETOR
O aumento nas vendas de materiais de construção também reflete a alta demanda de pedreiros e pintores por novos materiais, após as perdas causadas pela enchente.
Segundo Maurício Simionato, profissionais da construção civil muitas vezes exercem a profissão na informalidade e vivem em áreas de risco, e acabaram perdendo suas ferramentas. “Eles tinham que voltar a comprar furadeira, parafusadeira, uma serra tico-tico. Não era só reconstruir a casa, era reconstruir também seu trabalho.”
“Não vou dizer que foi uma coisa boa, mas tem bastante serviço”, relata o pintor Rafael Rosa da Silva, 37, que teve a casa totalmente submersa na zona rural de Harmonia, a 67 km de Porto Alegre.
“Logo após o mês de maio o pessoal já queria pintar, sendo que não tinha nem condições, as casas tinham muita água. Aí foi se adiando, e hoje estou com trabalho acumulado”.
Rafael e o sogro, que é pedreiro, perderam quase tudo para a correnteza ou a lama. Conseguiram salvar apenas a betoneira, que estava em uma obra em área segura, e alguns utensílios levados pela correnteza que encontraram espalhados em uma mata perto de suas casas.
As primeiras compras foram uma escada grande de alumínio e materiais como rolos, pincéis, tintas e bandejas, básicos para voltar ao trabalho o quanto antes. Agora, ele está considerando como conciliar os gastos da reconstrução de sua casa, cuja estrutura foi comprometida, com o investimento em novas ferramentas.
A prioridade é uma nova pistola de pintura para substituir a anterior, danificada pela água e sem conserto. “Como o custo é muito alto, uma dessas vale mais de R$ 10 mil no mercado, eu estou na luta para correr atrás.”
A série Reconstrução Gaúcha, publicada mensalmente no site da Folha, mostra a tentativa de reconstrução do Rio Grande do Sul após as enchentes de proporções históricas que começaram em abril deste ano e atingiram centenas de municípios do estado. As reportagens, publicadas no fim de cada mês, mostram os desafios em áreas como agropecuária, infraestrutura e setor imobiliário e o empenho na restauração dessas atividades. As enchentes deixaram 183 mortes, além de 27 desaparecidos, segundo o governo estadual.