
Um herói contemporâneo: Alexei Navalni
No início de 2021, quando Alexei Navalni decidiu regressar à Rússia ao lado de sua esposa, levantou-se a questão entre os mais cínicos: “Você é maluco, rapaz?”. Eu mesmo me incluo nesse grupo, sentindo no ar um clima fúnebre e olhando ao redor em busca de um velório próximo, como diria H.L. Mencken.
Navalni havia sido envenenado pelo Kremlin um ano antes e sobreviveu milagrosamente após tratamento médico na Alemanha. Então, qual seria o desfecho esperado ao retornar a Moscou?
O próprio Navalni revela em seu diário de prisão, pré-publicado pela revista “New Yorker” (o livro completo, intitulado “Patriot”, será lançado em 22 de outubro), que esperava ser preso pelo resto da vida. Na Rússia, a mentira tornou-se a única moralidade permitida, conforme ele desabafa em suas palavras.
Mas Navalni não era um homem de meias palavras. Ele prometera a milhões de russos que não os abandonaria, e cumpriu sua palavra. Seus princípios eram simples: eleições livres, um sistema judicial imparcial, menos corrupção e o fim da censura. Infelizmente, um mês após escrever essas palavras, ele foi assassinado.
O diário de Navalni é uma mistura de humor, ironia e absurdo ao relatar seus três anos na prisão, desde conviver com um vizinho psicótico até enfrentar processos judiciais fantasiosos que tentavam silenciá-lo na Sibéria.
Mas o diário vai além do humor, mostrando uma clareza mental que lembra outros grandes autores. Navalni questiona a submissão voluntária das massas diante das minorias que detêm o poder, ressaltando que os regimes autoritários se sustentam pelo medo da população.
Ele retorna à Rússia como um gesto contra o medo, um exemplo, um apelo. Seu sacrifício é feito em nome de um futuro melhor para o país e sua família, ciente de que não estará presente nos momentos felizes que virão.
Navalni se recusa a aceitar a prisão como um infortúnio, comparando sua situação à prisão em que Putin e outros tiranos vivem, uma existência dominada pelo medo e paranoia. Ele arrisca tudo em nome da decência, justiça e liberdade, não para si, mas para os outros.
A história sempre é escrita pelos vencedores, e heróis como Navalni podem ser excomungados se o regime de Putin persistir. A memória desses heróis é essencial para não sermos amnésicos diante dos momentos críticos da história.
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