
A importância da escrita em tempos de crise
No último fim de semana, o tradicional festival literário Flip, sediado em Paraty, trouxe à tona reflexões profundas sobre o papel da literatura em situações extrema. Uma das mesas que repercutiu foi a que debateu a crise na Faixa de Gaza e as enchentes no Rio Grande do Sul.
A mediadora Bianca Tavolari conduziu o diálogo entre o escritor palestino Atef Abu Saif e a escritora gaúcha Julia Dantas. Ambos abordaram a perda de referências em meio a crises devastadoras, destacando a necessidade de registrar as vivências em momentos críticos.
Saif, autor de “Quero Estar Acordado Quando Morrer”, relatou sua experiência nos 85 dias após os ataques em Gaza, enquanto Dantas, autora de “A Mulher de Dois Esqueletos”, compartilhou seus relatos sobre as enchentes em Porto Alegre.
Para Saif, a escrita tornou-se uma forma de resistência e de preservação da memória em meio à tragédia. Ele ressaltou que, mesmo diante de grandes tragédias, cada vida importa e merece ser narrada. Já Dantas salientou o papel dos diários como uma forma de expressão imediata diante de situações urgentes.
Além das experiências pessoais dos escritores, a mesa também abordou questões geopolíticas e sociais. Saif destacou a situação de Gaza como uma verdadeira prisão, enquanto Dantas fez um paralelo entre as abstenções nas eleições municipais e a descrença em projetos futuros.
O debate também contou com a presença de outros autores, como Odorico Leal e Micheliny Verunschk, que discutiram a capacidade da literatura de organizar e ressignificar a realidade. Leal apontou a necessidade de lidar literariamente com uma realidade contraditória, exemplificada pelas recentes eleições em São Paulo, enquanto Verunschk destacou a importância de repensar a narrativa em meio a um mundo em constante transformação.
Assim, a Flip não apenas proporcionou reflexões literárias, mas também abriu espaço para debates urgentes e significativos sobre o papel da escrita em tempos de crise e mudança.