Cerca de 30% dos municípios contam com menos de um médico para cada mil habitantes no serviço público.

Segundo os dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (Cnes), em alguns municípios a taxa de médicos por mil habitantes é extremamente baixa, de apenas 0,2, muito abaixo da média nacional, que é de 2,6 médicos por mil habitantes. Um exemplo disso é o município de São Pedro da Aldeia Branca, localizado na divisa entre os estados do Maranhão e Pará, que possui apenas quatro médicos para atender a cerca de 14.380 pessoas.
Essas informações foram coletadas pelo Instituto República.org, a partir do Cnes. Já a Demografia Médica Brasileira, um estudo realizado em fevereiro pela Associação Médica Brasileira (AMB) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), havia observado a desigualdade na distribuição de médicos tanto no setor público quanto no privado, enquanto os dados atuais mostram apenas a realidade da rede pública.
É importante ressaltar que os municípios são os principais responsáveis pela atenção primária, que é capaz de resolver em torno de 80% das demandas de saúde ao longo da vida de uma pessoa, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa atenção primária abrange serviços como pré-natal, vacinação e cuidado de doenças crônicas.
De acordo com Arthur Aguillar, diretor de políticas públicas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), a atenção primária exige uma relação próxima com os habitantes para melhor entender suas necessidades. Por isso, essa responsabilidade fica a cargo das prefeituras.
Apesar disso, muitas cidades pequenas não possuem nem mesmo a estrutura básica para oferecer esse atendimento primário. Faltam tratamentos, ferramentas de diagnóstico e outros procedimentos, além de as Unidades Básicas de Saúde (UBS) funcionarem em condições precárias. Esses fatores acabam afastando os profissionais de saúde dos municípios menores.
Além disso, os municípios costumam oferecer os menores salários para os profissionais de saúde, o que contribui para a falta de atratividade dessas localidades. Portanto, é essencial que haja uma valorização desses profissionais, inclusive dos médicos, aumentando a qualidade de vida e a remuneração nos municípios do interior.
A falta de médicos e outros profissionais de saúde também pode ser suprida pela busca de alternativas, como a maior participação de enfermeiros na atenção primária. Segundo Arthur Aguillar, do Ieps, os enfermeiros podem assumir práticas avançadas sem perder a qualidade do atendimento.
Outro desafio é a cultura de especialização que incentiva os médicos a se aprofundarem em áreas específicas, afastando-os do atendimento primário e contribuindo ainda mais para a escassez de médicos na rede pública.
Diante desse cenário, o programa Mais Médicos, restabelecido pelo governo federal neste ano, se mostra como uma grande aposta para reduzir a desigualdade na distribuição de profissionais da saúde. No entanto, é necessário que outros entes federativos, especialmente os estados e a União, também entrem nesse jogo com mais força e auxiliem os municípios a contratar e custear profissionais de saúde.
Além disso, as universidades podem contribuir para atrair médicos para o interior, investindo em programas de residência em cidades com menor número de médicos. Isso ocorre porque os profissionais tendem a se fixar nas regiões onde nasceram ou estudaram, segundo Arthur Aguillar.
Portanto, é fundamental que medidas sejam tomadas para resolver a falta de médicos no setor público e garantir o direito universal à saúde em todas as regiões do país. Isso inclui melhorar a estrutura de atendimento, valorizar os profissionais de saúde, buscar alternativas como a participação de enfermeiros na atenção primária e incentivar a formação e fixação de médicos em municípios do interior.