No entanto, eles encontraram um pouco de apoio e consolo no Pequenos Enlutados, um ambulatório de luto infantojuvenil dentro do Programa de Acolhimento ao Luto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Todas as terças-feiras, os irmãos e sua avó, Rozilda Bezerra, de 59 anos, viajam do Grajaú, na zona sul de São Paulo, até o ambulatório. Lá, recebem suporte de psicólogos e psiquiatras voluntários, que utilizam livros, jogos, brincadeiras e conversas para ajudar as crianças a compreender e lidar com os sentimentos gerados pela perda de entes queridos.
O luto, embora seja uma reação natural diante da morte, pode se tornar um problema de saúde quando se torna intenso e prolongado. Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a classificar essas situações como um transtorno mental, incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID). Por isso, é crucial que as crianças recebam apoio adequado durante o processo de luto para evitar complicações emocionais.
No ambulatório Pequenos Enlutados, o psiquiatra infantil Marcos Ribeiro tem ajudado José a lidar com suas emoções. Ele utiliza atividades como construção de pipas para ajudar o menino a expressar seus sentimentos. A avó relata que já notou melhorias no comportamento dos irmãos desde que começaram a frequentar o ambulatório. O elogio do diretor da escola também trouxe conforto e esperança para a família.
O Programa de Acolhimento ao Luto da Unifesp foi criado em 2020, durante a pandemia de Covid-19, para fornecer atendimento online a adultos enlutados. Desde então, mais de 3.000 atendimentos foram realizados. No entanto, a demanda por apoio a crianças e adolescentes enlutados também aumentou significativamente, levando à criação do ambulatório presencial Pequenos Enlutados.
Os profissionais no ambulatório são voluntários e oferecem dez sessões de ludoterapia focadas no luto. Além disso, os cuidadores recebem orientação sobre como abordar as perdas com as crianças. Atualmente, há uma fila de espera de 83 crianças para o atendimento presencial e 133 para o atendimento online.
A abordagem terapêutica utilizada no ambulatório varia de acordo com as necessidades individuais de cada criança. Os profissionais empregam a criatividade para ajudar as crianças a expressar seus sentimentos e encontrar maneiras saudáveis de lidar com a perda. Jogos, desenhos e simulações são algumas das técnicas utilizadas.
Embora um terceiro das demandas no ambulatório ainda esteja relacionado de alguma forma à pandemia, há outras causas de luto, como mortes por câncer ou suicídio. Crianças que perderam os pais de forma violenta também são comuns nos atendimentos. Em cada caso, os terapeutas se adaptam para encontrar a melhor abordagem.
O Pequenos Enlutados não é o único recurso disponível para crianças e adolescentes em luto. A Secretaria Municipal de Saúde recomenda procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) local para obter encaminhamento para serviços de atendimento e suporte. O Núcleo de Prevenção à Violência (NPV) e os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (CAPS Infantojuvenis) são alguns dos recursos disponíveis na rede municipal.
É essencial que essas crianças recebam o apoio necessário para lidar com suas perdas e superar o luto. O trabalho realizado pelos profissionais do Pequenos Enlutados e de outros serviços semelhantes é crucial para ajudar as crianças a encontrar uma nova forma de viver com a ausência de seus entes queridos. Através da ludoterapia e do suporte emocional, essas crianças têm a oportunidade de aprender a lidar com suas emoções e encontrar esperança em um futuro melhor.