
Mensagens de WhatsApp Revelam Tentativa de Pressão em Agências de Rating pela Americanas
No dia 11 de janeiro de 2023, a varejista Americanas se viu envolvida em um escândalo contábil que resultou em uma série de downgrades em suas notas de crédito por agências de classificação de risco. Mensagens de WhatsApp trocadas por executivos da empresa poucos dias após o anúncio do escândalo indicam uma tentativa de ganhar tempo e endurecer o diálogo com as agências de rating.
De acordo com as mensagens anexadas ao parecer do Ministério Público para busca e apreensão, um grupo de WhatsApp formado por executivos da área financeira da Americanas discutiu a abordagem que deveriam ter diante das agências de rating, que estavam prestes a rebaixar a varejista. Fabiana Oliver, diretora de Relações com Investidores da empresa, relatou o resultado de uma reunião com a Standard & Poor’s no dia 13 de janeiro, onde indicou a provável saída de um rebaixamento da nota de crédito.
A sequência de rebaixamentos nas notas de crédito da Americanas pelas agências S&P, Fitch e Moody’s foi detalhada nas mensagens, indicando um cenário desafiador para a empresa. Especialistas consultados pela Folha de São Paulo apontaram que o comportamento da Americanas, descrito nas mensagens, foi inapropriado e sugeriu uma pressão sobre a independência das agências de rating.
Para Aurélio Valporto, presidente da Abradin, manter um rating superior ao que deveria ser aplicado pode desorientar os investidores e induzi-los ao erro. Ele destacou que um rating inadequado é uma forma de manipular o mercado.
O diálogo entre os executivos da Americanas no WhatsApp também revelou a tentativa de antecipar medidas caso houvesse redução nas notas de crédito da empresa. Fabiana Oliver mencionou a necessidade de ser “um pouco duro com as agências de rating” e discutiu a possibilidade de um “calote cruzado”.
A Americanas, questionada sobre as mensagens, não comentou o assunto. As agências de rating contatadas pela reportagem se limitaram a dizer que não poderiam comentar sobre questões relacionadas a suas conversas com empresas avaliadas.
Especialistas Avaliam a Pressão em Agências de Rating como Indevida
De acordo com especialistas consultados, a pressão por tempo sobre agências de rating é considerada indevida. Alexandre Di Miceli, especialista em governança corporativa, destacou que o relacionamento entre as agências e as empresas avaliadas deve ser independente.
Jonathan Mazon, sócio associado do Ayres Ribeiro Advogados, ressaltou que algum nível de relacionamento e negociação é aceitável, mas a pressão não pode comprometer a imparcialidade da agência de rating. Ele afirmou que a agência tem a obrigação de divulgar as informações de forma transparente e imparcial, sem ceder a pressões externas.
Aurélio Valporto chamou a atenção para o histórico de falhas das agências de rating e ressaltou a importância de responsabilizá-las caso haja manipulação de ratings. Ele destacou que a confiança dos investidores nas agências é essencial e que qualquer interferência indevida pode causar prejuízos aos investidores.
A Americanas continua colaborando com as investigações em andamento e aguarda o desfecho do caso para tomar as medidas cabíveis. A conduta da empresa e a relação com as agências de rating permanecem em foco, refletindo a importância da transparência e independência nessas avaliações.