
Apesar das manobras políticas do governo conservador, a Justiça britânica estima que os estrangeiros correm o risco de serem deportados para seus países de origem, de onde fugiram por vários motivos, como guerras, perseguição política, racial, religiosa ou de gênero. A Suprema Corte chegou a lembrar que em 2021 o governo britânico criticou Ruanda por conta de assassinatos extrajudiciais, torturas e mortes em custódia, inclusive com casos em que a polícia abriu fogo contra refugiados.
O que o governo pretende fazer com a nova lei é ignorar a decisão da Suprema Corte e dizer, com o aval da maioria dos parlamentares, que Ruanda é sim um país seguro, apesar de até a ONU e a Corte Europeia de Direitos Humanos, da qual o Reino Unido é signatário, discordarem. O Reino Unido poderá estar infringindo leis internacionais.
Perigosa travessia no Canal da Mancha
O número de imigrantes indocumentados caiu no Reino Unido graças a um acordo com governo da Albânia, país de onde muitos tentavam migrar. Ainda assim, só no ano passado quase 30 mil migrantes atravessaram o Canal da Mancha em barcos que partem do litoral norte da França para a Inglaterra. Na semana passada, foram registradas 263 travessias em pleno inverno.
Mais de 70% dos migrantes são originários de países em guerra ou sob regime ditatorial, como Síria, Afeganistão, Irã e Iraque. Sem poder voltar para trás, os refugiados se arriscam na perigosa travessia em pequenos botes infláveis.
Crise imigratória e política
O projeto de lei ainda tem que ser apreciado pela Câmara dos Lordes, onde os conservadores não têm maioria. O governo não vê a hora de enviar a primeira leva de imigrantes para Ruanda, antes das eleições gerais que devem acontecer no segundo semestre no Reino Unido. A imagem de refugiados que tentaram migrar para a Inglaterra, mas acabaram na África, será politicamente explorada durante a campanha. Porém, mesmo que isso aconteça, serão poucos os deportados, quando comparados aos quase 100 mil imigrantes que aguardam uma decisão sobre seu status imigratório no Reino Unido; ou seja, o esquema não resolve o que muitos consideram uma crise imigratória.