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Transplantes: Com a morte, vida para muitos
Miguel Caleb, uma criança de apenas 4 meses de idade, e Alan Martins do Santos, um homem de 36 anos, têm em comum o fato de estarem em extremos opostos no programa nacional de doação de órgãos. Enquanto Miguel precisou ganhar um novo coração após meses de tratamento sem sucesso, Alan, vítima de um aneurisma, foi o doador do primeiro transplante multivisceral no estado do Rio de Janeiro, em 2018.
O tema da doação de órgãos esteve em alta recentemente, com o apresentador Faustão passando por um transplante de coração. Esse episódio gerou dúvidas e jogou luz sobre a questão da doação e a lista de espera por um órgão.
Acompanhando a rotina do Hospital Municipalizado Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a Folha destaca a importância da doação de órgãos. A unidade é uma das referências do país na captação de órgãos.
De acordo com o Ministério da Saúde, há 41.428 pessoas esperando por um transplante de órgão e 26.880 à espera de um transplante de córnea. Esses números representam um aumento de 8,9% e 12,2%, respectivamente, em comparação ao ano anterior.
O processo de doação e a lista de espera
A lista de espera faz parte do Sistema Nacional de Transplante, sendo administrada pelas Centrais Estaduais de Transplante. Os estados monitoram a lista, gerenciam as doações e selecionam para onde vai cada órgão, seguindo critérios como gravidade do paciente, compatibilidade do órgão com o receptor e antiguidade na lista.
A doação só é realizada com a autorização da família de quem morreu por morte encefálica. A equipe médica responsável pela doação se dedica a explicar à família sobre a situação do paciente com suspeita de morte encefálica e as etapas para confirmá-la, antes de falar sobre a possibilidade de doação.
O trabalho de comunicação com as famílias é árduo, mas fundamental para a continuidade do processo de doação. Doadores podem ajudar até oito pessoas, como no caso de Alan, que doou órgãos para diversos receptores após sua morte.
O cuidado com o doador
Após a morte encefálica e o aceite da família, inicia-se uma corrida contra o tempo para finalizar o processo de doação. O doador recebe um tratamento especial e é mantido nas melhores condições para que possa doar e ser devolvido à sua família de forma digna, como previsto em lei.
Na narrativa da Folha, acompanhamos o processo de captação de órgãos em uma cirurgia no início de dezembro. Todo o procedimento é realizado com o mesmo rigor e cuidado de uma cirurgia regular, porém, no caso da doação, o paciente está morto.
A outra ponta
O trabalho na Comissão Intra-Hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) é árduo, mas gratificante, lidando com a dor das famílias que estão perdendo entes queridos, sabendo que do outro lado está alguém que precisa muito do transplante.
Miguel Caleb, hoje com 7 anos, recebeu um coração após 17 dias na lista de espera. Sua mãe, Paloma Maria Barreto, expressa sua gratidão à família que doou o coração do filho. Após 5 anos da cirurgia, Miguel é um menino saudável e cheio de sonhos.