Impactos da COVID-19 na primeira infância da Maré revelam dificuldades nas áreas de saúde, alimentação, educação e segurança, aponta estudo da Redes da Maré.

A pesquisa foi realizada durante a pandemia e envolveu a aplicação de questionários para mais de 2.000 famílias, bem como entrevistas com profissionais de redes de proteção e apoio à primeira infância. Os resultados mostraram que muitas famílias enfrentaram dificuldades relacionadas à alimentação. Em alguns casos, membros das famílias abriram mão de alimentos para garantir que as crianças tivessem o suficiente para comer.
A falta de acesso a alimentos adequados e nutritivos foi agravada pela violência e pela insegurança. O relatório revelou que 62% das operações policiais ocorreram perto de escolas e creches, o que afetou diretamente o dia a dia das crianças. Muitos cuidadores relataram que as crianças testemunharam algum tipo de violência, o que resultou em perda de aulas, queda no desempenho escolar e restrição de circulação.
Além disso, o acesso limitado à educação e aos serviços de desenvolvimento infantil também foi um problema. A Maré possui apenas seis creches municipais e 15 Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs), que não conseguem atender à demanda das cerca de 15 mil crianças dessa faixa etária que vivem no local.
O relatório também destacou a importância de políticas públicas que considerem as formas de cuidado adotadas pelas comunidades. Na Maré, 94% dos cuidadores principais são mulheres, muitas delas autodeclaradas pretas ou pardas. A ausência de figuras paternas no cotidiano das crianças é um problema, assim como a falta de apoio financeiro adequado.
Para lidar com essas questões, o relatório faz uma série de recomendações às autoridades. Entre elas estão a expansão do acesso a serviços básicos de saúde, a ampliação da infraestrutura educacional e de desenvolvimento infantil e a adoção de políticas de segurança pública que evitem a violência nas comunidades.
A coordenadora da pesquisa ressaltou a importância de dar continuidade a esse trabalho e discutir essas questões para que as crianças da Maré tenham as mesmas oportunidades e direitos que as demais crianças da cidade. Ela enfatizou a necessidade de um olhar responsável e menos moralista por parte das políticas públicas, reconhecendo que existem diferentes formas de cuidar das crianças que devem ser consideradas e apoiadas pelo Estado.
Em suma, o diagnóstico revela a urgência de ações para enfrentar os desafios enfrentados pelas crianças da primeira infância na Maré. É fundamental garantir acesso a alimentos adequados, segurança, educação e saúde, além de apoiar as formas de cuidado adotadas pelas famílias e comunidades locais. A mudança requer um esforço conjunto de diferentes atores, incluindo o governo, ONGs e sociedade civil, para garantir um futuro melhor para essas crianças.