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Byshok argumentou que essa é uma questão de respeito à especificidade cultural da região, não apenas uma questão jurídica. Ele considera que essa questão é mais complexa do que a rápida e eficiente vitória militar do Azerbaijão, que culminou com a capitulação de Nagorno-Karabakh em apenas um dia.
Com o controle exercido pelo Azerbaijão sobre o território separatista, o destino da população local agora depende exclusivamente da boa vontade de Baku. Byshok afirmou que, caso os armênios locais reconheçam a jurisdição de Baku sobre o seu território, o Azerbaijão pode concordar em conceder certa autonomia cultural a eles.
No entanto, a expectativa é que essa situação provoque uma evacuação em massa da população armênia de Nagorno-Karabakh. Vladimir Shapovalov, vice-diretor do Instituto de História e Política da Universidade Estatal Pedagógica de Moscou, foi enfático ao dizer que o êxodo da população local é inevitável.
Shapovalov destacou que a posição assumida pelo Azerbaijão nos últimos anos não condiz com uma resolução democrática e jurídica da situação, nem com relações igualitárias entre povos. Ele acredita que o Azerbaijão não permitirá divisões, inclusive no sentido cultural e nacional de Nagorno-Karabakh, e, por isso, uma parcela significativa da população deverá deixar a região.
Essa investida do Azerbaijão contra o enclave de maioria armênia está não apenas relacionada à falta de apoio concreto da comunidade internacional à Armênia, mas também à intrincada posição de Baku na arena internacional, especialmente considerando a guerra da Ucrânia.
Ao longo desse conflito ucraniano, o Azerbaijão pôde tirar vantagem das sanções impostas pelo Ocidente à Rússia. Com o corte das importações de petróleo e gás russo, o país do Cáucaso se tornou uma alternativa para os Estados Unidos e a União Europeia, fortalecendo as relações comerciais com essas regiões.
Essa dinâmica favoreceu economicamente o Azerbaijão, que é rico em recursos energéticos, e também consolidou sua posição política em meio à crise entre Rússia e potências ocidentais. Por outro lado, a Rússia, tradicional aliada da Armênia, enfrenta uma relação instável com o primeiro-ministro armeno, Nikol Pashinyan, que demonstra proximidade com os EUA e cogita realizar exercícios militares conjuntos com Washington.
Moscou possui um grande interesse em manter sua influência no Cáucaso, mas sua participação ativa no conflito ucraniano impede que o Kremlin intervenha de forma mais enfática em Nagorno-Karabakh. Para Shapovalov, é fundamental para a Rússia que o Cáucaso do Sul não se torne uma esfera de influência dos Estados Unidos, e a presença militar na Armênia é uma garantia de estabilidade na região.
No entanto, os interesses russos estão limitados nesse momento devido ao seu envolvimento na guerra ucraniana. Moscou apelou pelo fim das hostilidades em Nagorno-Karabakh, mas classificou o conflito como um assunto interno do Azerbaijão e celebrou a resolução da operação militar de Baku.
Com a falta de ação da comunidade internacional, em especial da própria Armênia e da Rússia, na defesa das reivindicações de Nagorno-Karabakh, o Azerbaijão conquista um claro predomínio na região. O controle militar e jurídico está consolidado após os últimos desdobramentos. No entanto, a questão étnica no enclave continua obscura e pouco promissora do ponto de vista humanitário.