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O icônico Ferro’s Bar, conhecido como o Stonewall brasileiro, celebra quatro décadas de história revolucionária.

No dia 19 de agosto de 1983, o Ferro’s Bar, localizado no centro de São Paulo, foi palco de um levante protagonizado por lésbicas, que eram as frequentadoras assíduas do local. A revolta teve início devido à proibição da circulação do “ChanacomChana”, um periódico independente produzido por organizações LGBTQIA+, nas dependências do bar.

A investida ocorreu às 22h15 e chamou a atenção da imprensa, que se aglomerou para registrar o momento histórico. As líderes do movimento eram Rosely Roth, Miriam Martinho, Marisa Fernandes e Alice Oliveira, pioneiras do movimento lésbico brasileiro. Houve resistência por parte do porteiro, que segurava a porta, mas um corajoso roubou o acessório e o bar foi tomado.

Alice Oliveira, fundadora do Somos, primeira organização pela diversidade sexual do Brasil, conta que o Ferro’s Bar era um restaurante familiar durante o dia e se transformava em um ponto de encontro para lésbicas durante a noite. Ela destaca que o dono valorizava o dinheiro das lésbicas, mas não respeitava quem elas eram.

O levante foi uma resposta à proibição da venda do periódico “ChanacomChana” no estabelecimento. Segundo Alice, elas não aceitaram que um veículo direcionado às lésbicas fosse proibido em um lugar que era sustentado por elas. O episódio foi comparado a um mini Stonewall, em referência aos protestos ocorridos em 1969 nos Estados Unidos, que deram origem ao movimento LGBT+.

No dia 20 de agosto, o proprietário cedeu às reivindicações das mulheres e o triunfo foi celebrado com um beijaço. A historiadora Julia Kumpera afirma que essa foi a primeira manifestação pública liderada por lésbicas no Brasil e marcou o debate sobre a liberdade sexual em um momento de redemocratização do país.

Hoje em dia, o Ferro’s Bar não é reconhecido como um espaço de memória, mesmo tendo sido um marco na luta pelos direitos das lésbicas. No entanto, a data da invasão é celebrada como o Dia do Orgulho Lésbico. Para preservar a memória desse acontecimento importante, um curta-metragem que retrata o levante foi produzido pelo Cine Sapatão. A obra se concentra no protagonismo das lésbicas e resgata o início do movimento lésbico brasileiro.

Nayla Guerra, diretora do filme, destaca a importância de dar visibilidade a eventos de resistência como esse e afirma que existem muitos locais desconhecidos pelo país que também foram palcos de resistência. Alice Oliveira, que também é entrevistada no documentário, se emociona ao ver uma nova geração exaltando o passado e construindo o futuro das lésbicas.

Apesar de o Ferro’s Bar não ter se tornado um espaço de memória oficial, o episódio de sua invasão marcou a história do movimento lésbico no Brasil e sua celebração anual como Dia do Orgulho Lésbico é uma maneira de honrar essa luta.

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