Ao preparar-se para o confronto com a UPS neste verão, O’Brien instruiu seus membros a reunirem-se nas portas dos centros de trabalho para “ensaiar” a greve, buscou alianças para este esforço com outros sindicatos, organizações comunitárias e algumas organizações políticas, como o Democratic Socialists of America, para assegurar expressões de apoio se a greve ocorresse.
A empresa entendeu as dimensões da resistência e cedeu dias antes do programado para a grande greve em escala nacional, concordando com um contrato que eleva a 50 dólares por hora os salários dos choferes de nível máximo, novos benefícios incluindo a demanda de ar condicionado nos caminhões e eliminando o sobre-tempo obrigatório para a maioria dos trabalhadores.
No sindicato automotriz UAW, a mudança interna do sindicato culminou com a eleição de Shawn Fain, o primeiro presidente eleito pelo voto direto dos agremiados – no passado, a prática era que só os delegados em uma convenção poderiam votar sobre a liderança. A democratização desse sindicato também foi nutrida pela ira gerada por escândalos de corrupção de mais de uma dezena de dirigentes nacionais. Com a nova liderança, está demandando às três grandes empresas automotrizes aumentos salariais de 40%, sindicalização de novas fábricas de automóveis elétricos e melhores benefícios de aposentadoria.
Em suas preparações para uma possível greve contra as três empresas automotrizes, Fain convocou comícios em frente a várias fábricas, construindo o apoio de outros sindicatos e organizações progressistas e armando um fundo de greve com 835 milhões de dólares que pagará aos trabalhadores cerca de 500 dólares por semana durante a greve.
“Se haverá ou não uma greve no próximo mês, depende exclusivamente das três grandes fábricas de automóveis”, declarou Fain em meados deste mês. “Nossas prioridades estão claras, as empresas podem pagá-las, e há tempo mais do que suficiente para que as três grandes levem a sério estas negociações”.
A raiz do problema
Apesar destes atos de militância mais intensa, nada disso é fácil em um país sem plenos direitos trabalhistas. O professor Blanc afirma que “a razão pela qual não há ainda mais ações sindicais é a insegurança do emprego; o nível de autoritarismo dos patrões onde se trabalha é tão alto que intimida os trabalhadores”, e ressalta que “os direitos sindicais existem no papel nos Estados Unidos, mas as consequências de violar as leis trabalhistas são tão mínimas que as empresas sistematicamente violam a lei”.
O especialista relata que centenas de trabalhadores jovens da Starbucks que se sindicalizaram foram demitidos pela empresa, enquanto os trabalhadores que recusam se sindicalizar recebem aumentos salariais. “Tudo isso é ilegal, mas a Starbucks o faz de toda maneira porque o custo de aceitar um sindicato é maior do que o custo de um pouco de imprensa negativa ou eventualmente pagar algo aos trabalhadores se o governo manda”, comenta.
Entre o que necessitam os trabalhadores estadunidenses estão exemplos em outros países, garante Blanc. “O que poderiam fazer trabalhadores e progressistas mexicanos é estabelecer um exemplo para demonstrar o que pode ocorrer quando um governo realmente faz cumprir os direitos trabalhistas. Isso seria um grande apoio para organizadores nos Estados Unidos, para que possam dizer, vejam, nosso vizinho faz cumprir os direitos trabalhistas, e vejam o que acontece: os trabalhadores perdem o medo de se sindicalizar, os salários sobem, as empresas já não podem unilateralmente violar a lei”.
David Brooks e Jim Cason | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados. Tradução: Ana Corbisier
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