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Trump Propõe Mudanças nas Regras Comerciais: Um Perigo para Todas as Nações – Jornal da USP

Trump Propõe Mudanças nas Regras Comerciais: Um Perigo para Todas as Nações – Jornal da USP

1 de maio de 2025

Autores:

Redação


Por Paulo Feldmann, Professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP


A Teoria da Vantagem Comparativa, formulada pelo economista britânico David Ricardo há quase dois séculos, postula que a eficiência global aumenta quando cada país se especializa na produção de bens e serviços nos quais é mais eficiente. Essa premissa fundamentou a expansão do comércio internacional, promovendo benefícios mútuos entre as nações.

Ricardo argumentava que, mesmo se um país fosse mais eficiente em todas as atividades, ainda assim se beneficiaria ao trocar produtos com outros. Aplicando isso ao contexto atual, os Estados Unidos talvez consigam produzir camisetas de forma mais eficaz, mas é mais vantajoso deixá-las ao Brasil ou a Bangladesh. Assim, os EUA podem alocar seus recursos para a produção de itens de maior valor agregado, como tecnologia avançada e fármacos—um contratempo econômico fabricar camisetas internamente quando outro país pode fazê-lo a um custo inferior.

Entretanto, Donald Trump veio a público questionar as bases do desenvolvimento econômico, alegando que essas teorias contribuíram para o crescimento de nações asiáticas, especialmente a China. Essa visão é, no mínimo, controversa. No entanto, a autoridade do presidente dos EUA torna o debate particularmente relevante. A globalização, que beneficia países em todo o mundo, incluindo os EUA, precisa ser defendida, não desmantelada.

Em resposta a esse discurso, o presidente norte-americano implementou tarifas exorbitantes, que ultrapassam 135% sobre produtos chineses, na esperança de reverter a produção para solo americano. Contudo, essa estratégia ignora a tendência mundial, onde a indústria manufatureira está encolhendo, dando espaço a setores de comércio eletrônico e serviços, incluindo saúde e tecnologia. O retorno das indústrias manufatureiras aos EUA não necessariamente geraria os empregos prometidos na campanha de 2024, pois essas mudanças podem ser ilusórias.

Desde Ricardo, muitas dinâmicas mudaram, e a Teoria da Vantagem Comparativa evoluiu para incluir a Teoria da Vantagem Competitiva, proposta por Michael Porter, professor da Harvard, há cerca de 40 anos. Ele destaca que a competitividade de um país depende de fatores como a qualificação da força de trabalho e a infraestrutura disponível, mais do que da simples abundância de recursos naturais.

Ficou claro nas últimas décadas que nações que se concentraram na produção de commodities não evoluíram tanto quanto aquelas que investiram em produtos de alta tecnologia. A China, por exemplo, experimentou um crescimento significativo nos últimos 35 anos, aproveitando-se de suas vantagens competitivas, que na década de 1990 se resumiam à mão de obra barata—um dado que já não é tão válido hoje.

Curiosamente, foram empresas americanas que se apressaram em se instalar na China, beneficiando-se dos baixos custos de produção e gerando empregos—mas fora dos EUA. Isso é uma realidade econômica que Trump não conseguirá alterar. É essencial que se explique ao presidente que a cadeia produtiva moderna é global; componentes e peças são produzidos em diversos países, e os EUA sempre se saíram bem nesse cenário. As novas tarifas estão alimentando uma guerra comercial que, a longo prazo, comprometerá o comércio internacional e impactará negativamente todas as nações envolvidas.


(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo.)



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