Entre memes e algoritmos, muitos jovens estão se introduzindo no mundo político em um ambiente profundamente polarizado e conflituoso. Esse contexto não apenas transforma a forma como a política é percebida, mas também molda a postura das novas gerações em relação à democracia. Uma recente análise revela que a participação política para muitos é permeada por uma lógica de “lacração”, que busca vitórias retóricas em meio a disputas incessantes.
Concomitantemente, observa-se um crescente distanciamento da juventude ibero-americana em relação às instituições democráticas. Dados do Latinobarômetro indicam uma queda acentuada no apoio à democracia, particularmente entre os mais jovens, que expressam níveis alarmantes de desconfiança em parlamentos, partidos e outras instituições representativas, em comparação com a população acima dos 30 anos.
Fonte: acervo do autor.
Contudo, essa tendência não deve ser encarada como uma rejeição total à democracia. Há evidências de uma crítica às ineficiências práticas desse sistema. Apesar de 68% dos jovens ainda considerarem a democracia o melhor regime, 65% se mostram insatisfeitos com seu funcionamento atual.
A desafeição em relação à democracia entre os jovens não se limita ao afastamento das instituições. Estudos recentes sugerem que essa desconfiança também reflete disputas sociais pertinentes, exigindo uma reimaginação da política e da democracia em contextos de desigualdade, insegurança e rápida transformação digital.
Frustrações diante de desafios sociais
Esse descontentamento institucional não emerge de um vácuo; ao contrário, está intrinsecamente ligado aos desafios enfrentados diariamente pela juventude ibero-americana. A dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, por exemplo, continua a ser um problema desproporcional para essa faixa etária.
As barreiras impostas pelo alto custo de vida, a precarização das condições de habitação e a segregação socioespacial limitam as oportunidades, dificultando a construção de projetos de vida autônomos e prolongando a dependência familiar. Esses desafios exacerbam a incerteza e a instabilidade na transição para a vida adulta.
Além disso, a crise climática intensifica esse cenário, impactando não só as condições materiais, mas também a capacidade dos jovens de perceberem um futuro promissor. A insegurança em relação à resposta institucional aos desafios ambientais gera desconfiança nas estruturas democráticas.
Um agravante adicional é o aumento dos problemas de saúde mental entre os jovens. Estimativas da Organização Mundial da Saúde apontam que mais de um em cada sete jovens sofre de algum transtorno mental, sendo a ansiedade e a depressão as mais frequentes.
Assim, a aparente desafeição democrática entre os jovens pode ser entendida como uma resposta a frustrações ligadas a demandas sociais não atendidas. Em muitos casos, a desconfiança nas instituições torna-se mais intensa diante da percepção de que elas falham em oferecer soluções concretas para questões de inclusão, reconhecimento e justiça social.
Juventude e extremismo
Esse clima de descontentamento abre espaço para a propagação de discursos extremistas, especialmente entre os jovens. Tais narrativas encontram um terreno fértil nas plataformas digitais, que facilitam a circulação de conteúdos simplificados e emocionalmente carregados. Ao mesmo tempo, oferecem um espaço de pertencimento e identidade política que, muitas vezes, preenche o vazio deixado pelo distanciamento das instituições tradicionais.
Nos últimos anos, pesquisas têm indicado que forças autoritárias se aproveitam de sentimentos de insegurança e ressentimento, interpretando mudanças sociais como ameaças à identidade nacional. O risco aqui é a normalização de ideias antes consideradas marginais, que ganham visibilidade no debate público e influenciam diversos campos políticos, expandindo os limites do que se considera aceitável.
Os algoritmos propõem uma intensificação desse fenômeno, aumentando a velocidade e o alcance dos discursos radicais, incluindo aqueles relacionados a sexo, raça e intolerância. Assim, as novas gerações tendem a moldar suas identidades políticas em ambientes saturados por opiniões extremistas, que muitas vezes são legitimadas.
Os efeitos dessas dinâmicas também se manifestam nas políticas públicas destinadas à juventude. Em diversos países, observa-se a deslegitimação de políticas sociais, ao lado de discursos que responsabilizam os jovens como problemas a serem resolvidos, ignorando as desigualdades estruturais que permeiam suas vivências.
Um observatório para compreender e enfrentar o problema
Nos próximos dois anos, o objetivo é aprofundar a análise das condições que moldam a experiência democrática da juventude na região. A pesquisa buscará articular dados empíricos e interpretações analíticas para entender os fatores que contribuem para o distanciamento em relação às instituições e a propagação de discursos extremistas.
Este projeto abrange cinco países — Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha — e busca oferecer uma inteligência regional sobre tendências emergentes. O foco está nos entrelaçamentos entre desigualdades estruturais e as dinâmicas contemporâneas de participação política.
Identificamos quatro eixos principais de análise: educação, disputas de memória, ambiente digital e desigualdades (de classe, raça, gênero, sexualidade e território). Eles servirão como instrumentos para entender as forças extremistas e delinear possibilidades para respostas democráticas.
A pesquisa empregará diversas estratégias metodológicas, incluindo surveys comparativos entre os cinco países participantes. As amostras serão segmentadas por gênero, faixa etária, escolaridade, nível socioeconômico, raça/etnia e território.
Além disso, realizar-se-ão grupos focais com jovens de diferentes perfis sociais e posicionamentos políticos, e será feito um monitoramento digital de narrativas extremistas, desinformação e discursos antidemocráticos nas plataformas online.
O Observatório também mapeará políticas públicas e práticas democráticas voltadas à juventude na região, buscando identificar experiências que possam fortalecer a participação democrática e combater a radicalização.
O intuito do Observatório é não apenas mapear e entender melhor o problema, mas também articular academia, governos, sociedade civil e organismos internacionais, construindo respostas democráticas que enfrentem o extremismo de maneira eficaz. A agenda prioritária se concentra na ampliação de direitos, redução das desigualdades e fortalecimento da participação juvenil, reconhecendo que o combate ao extremismo passa, necessariamente, pela reimaginação da política e da democracia, alinhando-se às experiências, demandas e expectativas das novas gerações.
