Os Primeiros Cristãos e o Conhecimento do Mal
Os primeiros cristãos, antes da formalização dos evangelhos canônicos, já estavam cientes de sua singularidade. Havia múltiplas narrativas circulando, muitas delas excluídas da ortodoxia, como nos mostra J. D. Crossan em O Jesus Histórico e Four Other Gospels. Esses grupos primitivos enfrentaram a ascensão do catolicismo como religião oficial do Império Romano, a partir do século IV, e compreendiam que qualquer mensagem de “boas novas” deveria primeiro abordar a questão fundamental: unde malum? — de onde vem o mal?
Intitulados gnósticos, esses indivíduos reagiram com desprezo aos dogmas e hierarquias da época. Para eles, a resposta para os males da existência estava na gnose — um conhecimento íntimo e pessoal da divindade, em oposição à mera fé. Sua estrutura, aparentemente caótica, que incluía funções rotativas e a inclusão de mulheres em cultos, facilitou sua erradicação, visto que eram os andarilhos que disseminavam suas ideias de vilarejo em vilarejo, como menciona S. J. Patterson em The Gospel of Thomas and Jesus.
Mas o que era, afinal, tão incômodo nos gnósticos? Não se tratava de segredos obscuros ou encantamentos, como a história oficial da Igreja sugeriria, mas sim do poder da imaginação e da criação de um caminho próprio, desafiando superstições que eram apresentadas como verdades universais. O gnosticismo, ao contrário do quietismo, era ativo e inovador, conforme discutido em obras como Jesus the magician-charlatan or son of God de M. Smith.
As doutrinas gnósticas eram tão multifacetadas que classificá-las é um desafio até hoje. Para os críticos, como o padre Tertuliano de Cartago, sua diversidade de crenças era motivo de escárnio. Contudo, um renomado intérprete desse fenômeno foi Hans Jonas, cujos estudos, especialmente em A Religião Gnóstica, traçaram paralelos entre o gnosticismo e as questões existenciais contemporâneas.
Jonas, filósofo influenciado por figuras como Heidegger e Bultmann, percorreu uma trajetória que o levou da Alemanha, através da Palestina, até Nova York. Em sua obra Gnosis und spätantiker Geist, publicada em 1934, ele não apenas discutiu o gnosticismo, mas também explorou uma nova visão teológica em Mortality and Morality, a search for the good after Auschwitz, onde Deus é apresentado não como um criador onipotente, mas como uma entidade vulnerável, desgastada e distante de Suas criaturas.
A tragédia de Auschwitz, e os conflitos contemporâneos em locais como Palestina, Afeganistão e Ucrânia, levantam questões profundas sobre a natureza de Deus. Se Ele existe, sua responsabilidade na criação e nos horrores do mundo precisa ser reavaliada; afinal, como poderia um Deus onipotente permitir tais atrocidades?
Jonas propõe uma reinterpretação do papel de Deus, similar à abordagem kantiana que transforma a metafísica. Segundo ele, Deus perdeu sua posição de onipotência ao se imergir tão profundamente na criação que ficou à mercê do livre-arbítrio humano. Em sua mitologia, a divindade se comprometeu tanto que, ao se ativar na criação, esqueceu de preservar parte de Si. Assim, o que deveria ser um ato de amor se tornou uma fonte de desgoverno e confusão.
A alegoria do Deus que precisa dos justos para restaurar a ordem no mundo se torna central em sua reflexão. Este Deus, que não precisa de sacrifícios, mas sim de compaixão e ação moral, aguarda os homens para que a justiça prevaleça. A resiliência humana e a ética são fundamentais para que a criação e o Criador possam coexistir novamente em harmonia.
Estamos diante de um convívio divino que foge do estereótipo do ser onipotente. Ao contrário, contemplamos um Deus que, enquanto observa a repetição do ciclo de horrores da história, se vê exilado, necessitando da ajuda de suas criaturas para ressurgir, de forma discreta e solene, em um mundo que não deve ser associado ao sofrimento e à barbárie.
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