Incertezas e reviravoltas: a tensa dança do presidente Donald Trump
Nesta coluna, a professora Marília Fiorillo analisa os altos e baixos da administração de Donald Trump, uma figura que tem desafiado as normas da política mundial.
"Em um curto espaço de 15 dias, o equilíbrio global se desestabilizou. O presidente da que se acredita ser a ex-maior potência do mundo, Donald Trump, decidiu implementar uma mudança drástica na ordem internacional. Apoiando-se em uma lógica simplista, bem semelhante à de um comerciante da esquina, ele lançou mão de uma estratégia que desconsiderou uma série de variáveis essenciais, focando apenas no fluxo de caixa do país. Como resultado, países fornecedores, entre eles o Camboja, veriam o custo de suas exportações para os Estados Unidos saltar, tornando-se mais oneroso para consumidores que dependem desses produtos. O impacto foi imediato: as bolsas de valores ao redor do mundo experimentaram uma queda acentuada, mesmo as ações dos aliados de Trump, as gigantes da tecnologia, que, apesar de lamentações públicas, se viram afetadas pelas perdas iniciais — e, curiosamente, uma única delas equivale ao valor total de capitalização da bolsa da Alemanha, conforme relataram os principais veículos de comunicação."
"O cenário gerado deixou economistas de várias correntes perplexos e alarmados. Retórica de crise e catástrofe era ouvida em todos os cantos. Trump, com a postura típica de um valentão, desdenhou das consequências, utilizando uma linguagem descomplicada e impondo tarifas absurdas. A China foi a mais afetada, respondendo com uma tarifa de 84% sobre os produtos americanos, o que acendeu ainda mais a ira de Trump, resultando em um aumento ainda maior, passando para 145%. Assim, tornou-se inviável para os produtores americanos exportarem para o país, exigindo um ‘pedágio’ alto, além de não obterem ganhos diretos. Formaram-se, então, alianças inesperadas entre antigos adversários, como Japão, China e Coreia do Sul, em uma clara tentativa de resistência.”
"Envolto em um círculo de ‘yes men’, Trump enfrentou um momento crítico quando alguns lembraram da exorbitante dívida americana — a China detém um volume significativo de títulos do Tesouro. Iniciou-se, assim, a corrida para a venda desses papéis, o que poderia comprometer drasticamente a confiabilidade do dólar e a própria economia americana. No entanto, o pragmatismo de Trump veio à tona, e, em um movimento rápido, ele recuou, anunciando que padronizaria as tarifas globais em 10% por 90 dias. O mercado reagiu positivamente, e as ações se valorizaram — é notório como a economia pode ser volúvel."
“Líderes globais não podem tratar assuntos sérios de forma leviana. A caricatura do bullying tarifário de Trump foi capturada na analogia feita pelo embaixador Rubens Ricupero, que comparou a situação a uma cena de Charlie Chaplin, onde ele e outros líderes, em um ato de descuido, subiam em uma cadeira de barbeiro, batendo suas cabeças no teto. Enquanto os economistas se debruçam sobre as implicações desse verdadeiro tsunami, nós, como observadores, nos apoiamos nas imagens que se desenham. Para não parecer que estava perdendo a batalha (entre recessão e estagflação), Trump, o aprendiz de presidente, anunciou uma mudança nas regras de racionamento de água, alegando que ‘gosta de lavar seu lindo cabelo’, advertindo que pode muito bem inundar o Titanic."
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente às sextas-feiras, às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no YouTube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
