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Nutrição Infantil: Especialista Justifica a Irrelevância de Dietas para Crianças

Nutrição Infantil: Especialista Justifica a Irrelevância de Dietas para Crianças

29 de abril de 2026

Autores:

Mauro Fisberg, Professor do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda), Instituto Pensi/Fundação José Luiz Setúbal (FJLS)


Entre as questões mais frequentes nas consultas de especialistas em nutrição infantil, destaca-se a indagação sobre que tipo de dieta deve ser adotada para crianças com problemas alimentares ou excesso de peso. Muitos pais buscam orientações detalhadas, que contemplam desde cardápios rígidos até listas de substituições e recomendações de produtos a serem adquiridos.

Contudo, é preciso destacar que a imposição de um cardápio restritivo costuma ser uma estratégia ineficaz, especialmente quando isso significa expor a criança a novos alimentos ou preparações diversas das que já conhece. Em nossa experiência, essa abordagem é frequentemente condenada ao fracasso.

No Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda), do Instituto Pensi, constatamos que três em cada dez crianças atendidas apresentam excesso de peso, mesmo diante de grandes desafios para incluir novos alimentos em suas dietas, que geralmente são restritas e repetitivas. Essa realidade é um reflexo preocupante do contexto alimentar das crianças no Brasil.

A epidemia do excesso de peso

Atualmente, tanto o Brasil quanto o mundo enfrentam uma complexa transição nutricional e epidemiológica. Se no passado a luta era contra a desnutrição, hoje nos deparamos com o crescimento acelerado de doenças associadas ao excesso alimentar. Um número alarmante de crianças e adolescentes apresenta sobrepeso, e a prevalência desse problema cresceu rapidamente nos últimos anos.

Esse aumento de peso precoce resulta de uma condição multifatorial, que envolve genética, metabolismo e, principalmente, nosso estilo de vida contemporâneo. As crianças estão imersas em um “ambiente obesogênico”, caracterizado pelo sedentarismo extremo e pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, sal e gorduras. Infelizmente, a maioria dos jovens não realiza a quantidade necessária de atividade física.

Crianças com obesidade e fome oculta

É um equívoco pensar que uma criança com sobrepeso come de tudo. Na prática clínica, observamos que muitas delas apresentam uma alimentação limitada, restrita a poucos itens. Elas consomem grandes porções, mas de uma diversidade bastante reduzida, frequentemente excluindo frutas, verduras, legumes e cereais integrais.

Esse padrão alimentar gera o que chamamos de “Fome Oculta do Obeso”. Apesar da ingestão excessiva de calorias, essas crianças podem ter carências ocultas de vitaminas e minerais essenciais para seu crescimento, desenvolvimento neurológico e fortalecimento da imunidade. Muitas crianças com obesidade estão, na verdade, subnutridas em termos de nutrientes vitais.

Por que não restringir ainda mais a alimentação?

Quando uma família busca uma “dieta” para a criança, frequentemente nos deparamos com um grande desafio comportamental. Restringir ou impor um cardápio rígido a uma criança que já apresenta um comportamento alimentar limitado pode ser contraproducente. Muitas vezes, essas crianças sofrem com neofobia, ou seja, medo de experimentar novos alimentos.

A pressão para seguir uma dieta rigorosa, com proibições de alimentos que a criança evita, resulta em ansiedade, estresse e conflitos, levando a uma maior resistência a novas opções alimentares. A imposição de regras inflexíveis pode inclusive aumentar o risco de desenvolvimento de transtornos alimentares.

A importância de transformar o ambiente familiar

Para abordarmos efetivamente o excesso de peso e as dificuldades alimentares, é crucial promover uma mudança abrangente no estilo de vida da família, em vez de punir nutricionalmente a criança. Elas são reflexos do ambiente em que estão inseridas.

Pesquisas sobre “estilos parentais” demonstram que famílias permissivas ou extremamente controladoras frequentemente têm filhos que enfrentam maiores desafios alimentares e obesidade. Além disso, pais que estão constantemente em dietas ou que levam uma vida sedentária muitas vezes servirão como péssimos exemplos para seus filhos.

A transformação deve ser um processo afetivo, contínuo e prático, fundamentado em pilares essenciais:

· **Alterar a alimentação familiar**: Não deve haver uma dieta distinta para a criança e outra para os adultos. O ambiente sabe ser repleto de opções saudáveis, enquanto o acesso a alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas deve ser restrito para todos.

· **Resgatar as refeições em família**: Compartilhar refeições à mesa e dialogar durante os momentos de alimentação ajuda a criança a adquirir comportamentos alimentares saudáveis, além de proporcionar segurança e reduzir o risco de obesidade. É fundamental eliminar distrações, como telas e celulares, que podem atrapalhar a percepção dos sinais de saciedade.

· **Aumentar o gasto energético**: Combater o sedentarismo não significa impor treinos rigorosos. Iniciativas lúdicas, como caminhadas em família, esportes e atividades ao ar livre devem substituir o tempo excessivo diante da televisão.

· **Educação nutricional pelo exemplo**: Em vez de impor, devemos oferecer repetidamente novos alimentos em um cenário sem pressão, encorajando a criança a participar do preparo das refeições, o que pode criar memórias afetivas positivas relacionadas à comida.

Enfrentar o excesso de peso e a seletividade alimentar nas crianças não consiste em colocá-las em uma dieta. Trata-se de reestruturar o ambiente familiar, favorecendo escolhas saudáveis, atividades físicas e afeto. Essa mudança exige paciência, mas, quando realizada de maneira integrada, garante resultados positivos e duradouros.



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